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Autoengano: o que é, quais seus tipos, consequências e exemplos

 
Por Gianluca Francia, Psicólogo. 26 maio 2021
Autoengano: o que é, quais seus tipos, consequências e exemplos

Existem pessoas que são traídas abertamente por seus/suas parceiros/as e que não acreditam que o/a companheiro/a seja infiel; histórias de amor desgastadas em que as pessoas insistem em continuar tentando; sinais preocupantes de adoecimento que são ignorados por serem atribuídos equivocadamente aos transtornos de cansaço do trabalho; vícios em substâncias tóxicas que acreditamos ser resultado de um comportamento escolhido por nosso livre arbítrio...

Nessas situações, contamos uma história a nós mesmos que não corresponde com a verdade, e um intérprete atento não deixa escapar que, se fôssemos imparciais ou não estivéssemos emocionalmente e cognitivamente envolvidos na situação em que nos encontramos, ou se não tivéssemos uma motivação ou um interesse em acreditar em algo mais agradável, não seria difícil ver e dizer como as coisas são. Neste artigo de Psicologia-Online, vamos descobrir então o que é o autoengano na psicologia, seus tipos, consequências e exemplos.

Significado de autoengano

A origem da palavra "engano" vem do latim tardio (gannare), com influências tanto gregas como eslavas, e seu significado é o de zombar, de engano, fraude, e naturalmente, é dizer isso de forma deliberada, ou seja, não involuntária, com o propósito de obter vantagens de qualquer tipo, desde do tipo econômico ao relacional, às custas de quem está sendo enganado.

Um autoengano, por outro lado, provém de nós mesmos e é difícil de ser detectado e, portanto, de ser combatido, justamente porque não foi possível (ou desejado) reconhecê-lo: todos nós tendemos a querer ver na realidade aquilo que confirma nossas sensações e ideias. É o princípio básico do autoengano. A vítima oculta o real estado das coisas ou crê em algo que espera que não seja falso. Se ilude de que um objeto, uma situação ou uma relação é melhor (ou pior) do que parece e, por ingenuidade, informação errônea ou superficial, cai na armadilha que criou.

O autoengano é classificado precisamente como um fenômeno psicológico que pertence à família mais ampla de casos da chamada "irracionalidade motivada", em que "motivada" se define como qualquer forma de irracionalidade na qual não nos encontraríamos se não estivéssemos condicionados por um estado motivacional (por exemplo, um desejo). O autoengano, portanto, consiste na formação (ou manutenção) de uma falsa crença no impulso de um forte estado de motivação para acreditar nessa proposição.

Função do autoengano

O autoengano é um processo de distorção cognitiva, que possui motivações psicológicas e existenciais que podem ser muito diferentes entre si, mas todas elas são voltadas para garantir a obtenção de um estado considerado preferível àquele que se determinaria de outra forma com a aceitação dos impulsos, que provêm de zonas profundas da psique.

Freud considerava o procedimento de recusa como um dos mecanismos de defesa, com o qual a própria pessoa se impede de reconhecer um desejo que produz conflitos e perturbações que o situam sobre uma situação psicologicamente insustentável. A verdade, ou a aceitação dos fatos tidos como reais ou presumidos, pode representar ou ser vivida como uma ameaça. Nesse caso, o Eu trata de proteger a imagem de si mesmo, se convencendo a sentir, pensar ou atuar seguindo motivações, ideias ou valores que reforçam a sensação de segurança pessoal e ajudam a acalmar a culpa e os conflitos internos, que de outro modo não poderiam ser controlados.

Mas o autoengano tem também um valor social, no sentido de que é um importante fator de coesão social: de fato, é possível pertencer a uma comunidade sem compartilhar dos enganos coletivos que a caracterizam. Podemos dizer, então, que o autoengano, ou seja, as lacunas e os saltos lógicos do pensamento consciente servem para evitar de sermos excluídos ou marginalizados da comunidade a qual pertencemos. A ausência do autoengano teria duas consequências graves.

  1. A primeira seria uma denúncia da falsidade da maioria dos membros da própria comunidade, acusação que não seria tolerada pelos interessados, e daria lugar ao castigo e marginalização do acusador.
  2. A segunda consequência seria a utilização da própria falsidade, que resultaria em efeitos desastrosos na autoestima, tanto do ponto de vista intelectual como moral. Então, o sujeito se sentiria indigno de pertencer a uma comunidade de pessoas sinceras.

Consequências do autoengano

Como podemos ver, em certas situações, o autoengano pode ser necessário, no entanto, também pode nos afetar negativamente. O autoengano pode ser duas caras, e também ter consequências desfavoráveis. Entre as principais consequências do autoengano, podemos encontrar:

  • Não enfrentar a realidade: nos autoenganamos pensando que nosso/a companheiro/a mudará ou que nossa família nos entenderá algum dia.
  • Culpar os demais e as circunstâncias: o autoengano faz com que não nos responsabilizemos sobre aquilo que é nossa responsabilidade, e que culpemos o contexto e as outras pessoas por tudo.
  • Não agir: se não aceitamos o problema, que a pessoa ou o trabalho são da forma que são, não faremos nada a respeito da situação, por exemplo, não terminaremos a relação ou não mudaremos de trabalho.
  • A situação não muda: nos mantemos em uma situação que não nos agrada ou que nos provoca mal-estar.
  • Não avançamos: o autoengano faz com que a gente não aceite a realidade, não assuma a responsabilidade sobre o que somos responsáveis, e nem faça nenhuma ação para promover uma mudança. Portanto, nos deixa estagnados.
  • Não aprendemos: se não agimos e nem fazemos mudanças, não vivemos novas experiências, e não aprendemos.

Tipos e exemplos de autoengano

Vejamos algumas situações frequentes em que o autoengano está presente:

  • Um homem acredita que sua esposa não possui uma relação extraconjugal, mas na realidade possui, e ele acredita que não, apesar do fato de que ele possuir a evidência deveria ao menos alertá-lo e favorecer a convicção, ou ao menos a suspeita, de que sua esposa é infiel.
  • Uma oncologista experiente acredita que não tem câncer, ainda que tenha sintomas que normalmente identificaria como diagnósticos de um tumor grave em seus pacientes.
  • Uma mãe acredita que seu filho é inocente e que não cometeu um crime pelo qual foi condenado, mesmo depois de uma confissão completa.
  • Uma pessoa agiu metodicamente de modo a acelerar a morte de seu/sua parceiro/a alcoólatra deixando que ele/a bebesse em excesso, mas agora acredita que não teve nada a ver com o falecimento de seu/sua cônjuge.

Exemplos de frases de autoengano

Frases típicas que indicam autoengano:

  • "Posso parar de fumar quando eu quiser."
  • "Posso decidir terminar a relação a qualquer momento."
  • "Posso começar a trabalhar quando eu quiser."
  • "Sei o que eu faço."
  • "Estou em cima de você, porque você não consegue se cuidar sozinho/a."

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Bibliografia
  • Conti, I. (2012). Autoinganni. Per non essere più vittime dei tranelli che ci costruiamo da soli. Milán: Franco Angeli.
  • Pedrini, P. (2013). L’autoinganno. Che cos’è e come funziona. Bari: GLS.
  • Psicologia dei bisogni (2021). Autoinganno. Recuperado de: https://psicologiadeibisogni.it/autoinganno/
  • Saladini, V. (2012). Le vie della mistificazione. Roma: Armando Editore.

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