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Como superar a morte de um ente querido

 
Por Marta Thomen Bastardas, Psicóloga. 6 outubro 2021
Como superar a morte de um ente querido

Um dos momentos mais dolorosos que temos que enfrentar em nossa vida é a perda de um ente querido. Frente a essa situação surgem uma infinidade de sentimentos, pensamentos, emoções, etc., derivadas da perda. Muitas vezes, a pessoa que sofreu a perda se sente sem rumo, sem saber como enfrentar a situação.

Como aceitar a morte? Como superar o luto? Como superar a morte do pai? Como superar a morte da mãe? Por isso, é importante conhecer o luto em toda sua complexidade, compreendendo seus estágios e reações normais associadas. Diante dessas circunstâncias, queremos mostrar como superar a morte de um ente querido neste artigo de Psicologia-Online.

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O que é o luto?

O próprio processo de luto leva implicitamente na etimologia da palavra (do latim luctus) o significado de dor e sofrimento. O luto é a consequência advinda da ruptura de um vínculo. Nesse artigo iremos focar no luto pela perda de um familiar/amigo, mas o luto pode aparecer em qualquer perda, seja ela sentimental, de emprego, etc., o que iremos expor posteriormente. Toda circunstância que implique em uma separação e/ou perda relevante para o indivíduo é considerada um luto.

Dessa forma, o luto geralmente envolve uma perda que rompe com a história de cada sujeito, de onde viemos e de onde projetamos nosso futuro. Ele implica em uma mudança importante em nosso dia a dia, devido ao fato de que rompe a suposta proteção acerca do que esperávamos que fosse nossa vida — agora, é preciso refletir como ela será após essa ausência.

Diante dessa perda, o luto leva a um conjunto de reações emocionais que se manifestam por meio de sentimentos, pensamentos, emoções e comportamento que estão por trás do luto. Entretanto, o luto é uma resposta saudável a uma realidade dolorosa, onde esta é alterada por causa da perda, requerendo um processo de adaptação gradual para poder voltar ao equilíbrio anterior à perda.

Tipos de luto

Como indicamos anteriormente, um processo de luto não ocorre unicamente por causa do falecimento de uma pessoa querida, já que pode aparecer por causa de qualquer perda que tenhamos em nossas vidas. Tendo isso em mente, podemos encontrar tipos de luto diferentes. Diversos autores classificam o luto em várias categorias, porém todas elas contemplam a classificação entre o simbólico e o tangível. Neste caso, iremos nos focar na classificação de J. Tizón (2003), que distingue os tipos de luto em quatro categorias:

  1. Perdas materiais: faz referência aos lutos que ocorrem diante de uma perda tangível, como, por exemplo, um objeto de valor simbólico importante, bem como uma mudança de casa.
  2. Perdas relacionais: o processo de luto dentro dessa classificação se dá frente a ruptura de relações com alguém querido, como por um falecimento, término, abandono, etc.
  3. Perda "intrapessoal": a vivência do luto interpessoal se refere aos sentimentos próprios como, por exemplo, a perda de um trabalho por não conseguir desenvolver satisfatoriamente uma habilidade que se acreditava ter, perda de um membro do corpo, enfrentamento de doenças graves, etc.
  4. Perdas evolutivas: as perdas evolutivas se referem as diferentes transições que enfrentamos ao longo da vida, como entrar o mercado de trabalho e deixar para atrás os anos de faculdade, a saída da infância ou durante a aposentadoria.

Por outro lado, é muito importante reconhecer a perda socialmente, visto que o apoio social é imprescindível frente a uma perda, já que é um fator de proteção muito importante. A perda de alguém querido é uma perda reconhecida pela sociedade — todavia, existem os lutos não-autorizados como a perda de um amante, no qual a pessoa não pode expressar seu sentimento publicamente. Também pode ser mais complexo elaborar o luto diante de uma perda inesperada, em uma idade em que não se espera um falecimento, etc.

Estágios do luto

Os estágios do processo de luto são os seguintes:

1. Negação

Nesse estágio do luto a pessoa não se dá conta da perda, pois está em estado de choque e não consegue tomar consciência do que ocorreu. É importante reconhecer as diferenças de idade neste estágio, pois a resposta ao que ocorreu será muito diferente numa criança e num adulto, por exemplo. Frequentemente as crianças agem como se nada tivesse acontecido e perguntam onde a pessoa está, quando voltará, etc., já que para eles é um processo muito natural.

Aqui é imprescindível contar com um apoio prático, visto que diante da morte de um familiar, é necessária uma reorganização da própria família. Em muitos casos, é preciso que uma pessoa não tão próxima seja a responsável por refazer esses laços, tendo em vista que os parentes estão sofrendo com a perda.

O estágio de negação tende a ser mais intenso em casos de mortes súbitas ou repentinas, como no caso de uma doença, por exemplo.

2. Assimilação

Nesse estágio do luto o indivíduo passa a estar cognitivamente consciente da perda e busca ferramentas para como viver sem aquela pessoa. Nessa etapa pode ocorrer:

  • Absorção gradual frente ao impacto da perda;
  • Solidão, tristeza, angústia, desespero intenso, sentimento de culpa... No artigo a seguir você descobrirá como superar o luto;
  • Distanciamento do mundo exterior para melhor adaptar-se;
  • Pensamentos incisivos, pesadelos, sonhos sobre a volta do ente querido;
  • Alterações na alimentação, perda de motivação, incapacidade de se concentrar ou de aproveitar algo, ver o futuro com desespero, nervosismo, dores somáticas, etc.

O indivíduo tem sintomas muito parecidos com os da depressão, mas são coisas que não devem ser confundidas, apesar de o luto ter sintomas muito parecidos com esse outro diagnóstico. Entretanto, se o luto não for processado corretamente, pode surgir um luto patológico.

3. Acumulação

A pessoa consegue reorganizar sua vida e voltar ao dia a dia com normalidade, encontra o equilíbrio e consegue voltar a dar atenção ao que já tinha, no futuro e em seus próximos objetivos. Ainda podem aparecer sentimentos de tristeza, mas o indivíduo já consegue falar sobre suas emoções, mantém um melhor gerenciamento emocional e se esforça para retornar ao cotidiano.

4. Processo

Meses depois da perda, ainda surgem esporadicamente sentimentos de tristeza ou outras consequências mais leves, que não implicam em uma ruptura marcante no funcionamento cotidiano da pessoa. No artigo a seguir você encontrará informações sobre como superar a morte da mãe.

Como superar a morte de um ente querido

Superar a morte começa com a integração da perda em nossa consciência e, posteriormente, uma reconstrução dos significados sobre o que foi nossa vida e como ela será após essa perda. Diante disso, Therese Rando apresenta o Modelo dos 6 “Rs” que responde à pergunta “como superar a morte de alguém querido”.

  1. Reconhecimento da perda: se não houver reconhecimento da perda, não haverá processo de luto. Este R implica em aceitar a realidade da perda, compreendê-la e dar alguma explicação — isso é importante para ela fazer algum sentido para você, ainda que não seja o sentido mais adequado.
  2. Reagir à separação: a reação emocional do indivíduo é uma das fases mais relevantes para sua superação. É muito importante aprender a identificar, rotular e diferenciar suas experiências afetivas. É fundamental experimentar a dor, permitir-se sentir e identificar suas próprias reações, bem como chorar as perdas secundárias fruto da perda principal.
  3. Recordar-se da pessoa falecida e da relação entre vocês: é necessário trabalhar o medo de perder a conexão com a pessoa falecida. Nessa fase devem ser revividos os sentimentos da relação, tanto os bons quanto os mais dolorosos ou negativos. Você deve se lembrar da relação com a pessoa querida em sua totalidade.
  4. Renunciar (abandonar): nessa fase do luto se deve renunciar aos vínculos antigos com a pessoa falecida, aceitar que a vida não será a mesma e que as próprias crenças sobre o funcionamento da realidade serão diferentes — como, por exemplo, as emoções, pensamentos, memórias, comportamentos, padrões de interação.
  5. Reajustar-se para avançar adaptativamente a um novo mundo, sem que isso implique em esquecer do anterior: devemos construir um ideal de como será a vida após a perda, sem deixar de manter uma relação simbólica com a pessoa falecida. Esse processo envolve dois critérios que devem aparecer simultaneamente: reconhecer a realidade da morte e compreender suas consequências, bem como se adaptar à nova realidade.
  6. Reinvestir: por fim, é importante voltar a criar momentos de satisfação, estabelecer novos papéis, relações, projetos, novas ideias ou crenças.

Perda de um ente querido: reflexões

No ciclo da vida está implícito o nascer e o morrer, mas nos parece difícil assimilar que a vida tenha um fim. É difícil contemplar a possibilidade de que chegará um dia que uma pessoa querida não vai mais estar aqui e, quando isso ocorre, observamos que essa condição humana escapa do que queremos ou esperamos.

Nunca se está preparado para perder uma pessoa importante para si e não devemos viver esperando o momento da partida e nos lembrando de que ele irá chegar; contudo, a realidade é que uma vez que essa pessoa tenha falecido, passamos a ter uma infinidade de pensamentos como:

  • Por que não passei mais momentos com essa pessoa?
  • Por que não aprendi mais com ela?
  • Por que não aproveitei mais os momentos que tive com ela?

Não podemos evitar um processo natural como a morte, mas podemos, sim, dar uma resposta a essas perguntas em vida. Por isso, sabendo que esses pensamentos invadirão nossa mente quando isso acontecer, procuremos reduzir os danos: que aproveitemos cada momento com aquela pessoa, que procuremos estar focados no presente e viver cada momento como se fosse o último.

Quando a hora do adeus chegar, se tivermos vivido com plenitude tudo que há para se viver com essa pessoa, não haverão questões pendentes, nem culpa, nem remorso.

Por outro lado, devemos estar conscientes que um dos fatos mais dolorosos que teremos que aceitar é que não vamos mais poder voltar a viver momentos com essa pessoa, ainda que nossas memórias sejam nosso maior tesouro, já que uma pessoa só morre quando não é mais lembrada.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Bibliografia
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