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O que é mitomania: significado, sintomas e tratamento

 
Por Bryan Longo. 3 setembro 2021
O que é mitomania: significado, sintomas e tratamento

É bem possível que a maioria de nós já tenha se visto em alguma conversa com alguém que contava histórias que não pareciam lá muito verdadeiras. Ouvir histórias fantásticas contadas por esse sujeito, conhecer certas conquistas contadas por essa pessoa que devaneia e acreditar que temos sorte por sermos amigos de um personagem tão interessante são algumas das muitas experiências amargas que mitomaníacos podem provocar em terceiros. Neste artigo de Psicologia-Online nos aprofundaremos no tópico da compulsão em mentir, explicando o que é a mitomania em psicologia: significado, sintomas e tratamento.

O que é mitomania

Em psicologia, a mitomania é a tendência que algumas pessoas têm de alterar a realidade ao descrevê-la ou em fazê-lo em processo de fabulação. Essas pessoas contam mentiras sistematicamente e, ainda que não se expressem, possuem uma necessidade compulsiva de mentir.

É preciso deixar claro que a mitomania (a mentira) não é um transtorno, e, sim, um conjunto de sintomas ou síndrome. Por exemplo, um narcisista mente para se ver como herói ou vítima importante de uma história da qual possa se enquadrar. Uma pessoa borderline mente por questões de autoestima. Um psicopata usa a mentira como um instrumento para conseguir algo dos outros. No transtorno factício, mente-se para para ferir ou cuidar de alguém ou mesmo para machucar a si mesmo. Toda essa questão é variável, porque depende do objetivo da mentira.

K. Schneider (1920) afirma que há um traço característicos nessas personalidades, o que seria "parecer mais do que se é". Para se sentir importante, representa-se um papel, mesmo que isso cause prejuízo à honra e à saúde.

No começo, o indivíduo mente de forma consciente e depois passa a acreditar na própria mentira. Quando mais se desenvolve o personagem, mais falta a essas pessoas qualquer emoção genuína e verdadeira. São falsas, incapazes de qualquer relação afetiva duradoura ou realmente profunda.

Mitomania: sintomas e exemplos

Os sintomas e características que podemos observar em pessoas com mitomania são os seguintes:

  • Pessoas que contam histórias de outras pessoas como se fossem suas;
  • Maquiam uma história real floreando-a e adicionando ou omitindo algumas situações dela, sejam estas relevantes ou não;
  • Esse vício em mentir pode levá-los a acreditar ou inventar uma vida que não é a sua ou que não tem absolutamente nenhuma relação com a sua (mentindo sobre empregos, lugar onde moram, nacionalidade, descendência, condição socioeconômica, bens, habilidades, falsos méritos, proezas, etc);
  • Essas pessoas quase nunca pedem ajuda, a menos que estejam em uma situação em que tenham sido descobertos e desmascarados;
  • Podem fabular ou mentir não somente no primeiro contato com uma pessoa, como também mentem para as pessoas com quem já possuem uma relação douradora e que inclusive podem ser mais íntimas (família, amigos, colegas de trabalho, parceiro(a), vizinhos).

Causas da mitomania

Em momentos de derrota, frequentemente nossa autoestima ou autopercepção ficam alteradas, vindo à tona ideias de incapacidade e, por vezes, pensamentos niilistas. Emoções como raiva, tristeza, aborrecimento e vergonha também podem estar presentes de forma concorrente, e ao mesmo tempo ocorre algo muito particular: ao desejarmos de maneira impetuosa sair do fosso escuro do fracasso, passamos a fantasiar sobre uma existência muito mais prazerosa e de acordo com nossas aspirações ou desejos. Essas fantasias vão por um caminho que termina em uma via de mão dupla: a melancolia ou a patologia.

As pessoas com baixa autoestima são mais vulneráveis à mitomania

A baixa autoestima anterior aos insucessos influencia e potencializa a inclinação de viver as fantasias para além do mero desejo. Passa-se a uma vida onde não há dor, falhas, emoções de irritação, tristeza, raiva, vergonha ou, como são popularmente conhecidas, "emoções negativas". Nessa utopia as pessoas acreditam viver em um ambiente de conquistas, vitórias, habilidades, amor próprio, imperativos de felicidade e autorrealização que não são nada mais do que eventos inexistentes que podem ou não ser explicados por terceiros.

As pessoas com baixa autoestima (uma percepção alterada sobre si mesmas) encontram-se no campo do indeterminado da catástrofe causada pelas mentiras patológicas.

Nesses casos, as mentiras podem funcionar como mecanismos de adaptação, como ocorre com a maioria dos seres humanos que não possui uma obsessão por mentir (por exemplo, mentimos para o chefe ou para a família que estamos bem quando, na verdade, estamos passando por uma crise, tudo com o objetivo de não criar entraves nessas relações). Os mitomaníacos usam da mentira como uma ferramenta de adaptação necessária. Entretanto, em seu âmago se passa o contrário, e é por isso que às vezes leva muito tempo para a verdade vir à tona.

Acreditar nas próprias mentiras é uma doença?

As mentiras representam um cenário diferente da realidade e, como dito anteriormente, podem funcionar como mecanismos adaptativos. Esse passo dado em direção à consciência das palavras ditas é o que permite o discernimento: logo, as mentiras representam uma patologia não quando o indivíduo acredita com firmeza que aquilo é verdade, e sim quando apesar de saber que é uma mentira, continua a mentir.

O sujeito pode não ter consciência de que está mentindo (uma pessoa pode não saber que sua família não tem os privilégios e prestígio que por anos disse ter, por exemplo, e nesse caso ela ignora que tudo isso é uma mentira, ainda que esteja muito seguro de possuir um status social elevado).

O cérebro é o único órgão do nosso corpo onde ainda é possível observar as diversas camadas de nossa evolução (o cérebro está divido em três grandes estruturas, de acordo com a teoria do cérebro trino de McLean): o tronco cerebral, o sistema límbico e o neocórtex.

Nossa cultura não presta muita atenção ao tronco cerebral (o cérebro reptiliano. Não o levamos em consideração porque nosso cérebro "mais consciente" acredita estar no comando de tudo. Isso é especialmente forte sobretudo em nossa cultura ocidental, na qual cremos que nossa vida é conduzida por nosso cérebro consciente e também acreditamos em nossas próprias mentiras.

Em nosso cérebro reptiliano, por sua vez, há uma enorme sabedoria acumulada ao longo dos milhares de anos de evolução filogenética, mas não precisamos pensar nele, já que ele se encarrega de manter nossas funções vitais, como regular nossa frequência cardíaca, nosso metabolismo, a temperatura, os ciclos de sono-vigília, etc. Definitivamente ele está no comando da nossa vida, mas se trata de uma sabedoria inconsciente. Essa sabedoria inconsciente também armazena os variados mecanismos adaptativos aprendidos durante a evolução, incluindo a mentira.

Tratamento para mitomania: como ajudar um mentiroso compulsivo?

Para tratar a mitomania é necessário reeducar a percepção de realidade do paciente, e isso requer tanto o apoio de um profissional da saúde mental quanto de um compromisso por parte do paciente.

Uma desvantagem existente é que o mitomaníaco não reconhece seu problema. Por isso, não procura por ajuda profissional ou mente para não ter que frequentar as consultas.

Há tratamentos a base de remédios psiquiátricos, mas devem ser prescritos exclusivamente por um especialista. No geral, esses tratamentos dependem da presença de sintomas ligados a outros transtornos psicológicos.

Ainda assim, defendemos firmemente que a intervenção por meio da psicoterapia é o melhor método para ajudar as pessoas que apresentam esse tipo de problema.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

Se pretende ler mais artigos parecidos a O que é mitomania: significado, sintomas e tratamento, recomendamos que entre na nossa categoria de Psicologia clínica.

Bibliografia

K. Schneider. (1920). Las personalidades psicopáticas. Editorial Morata. Madrid.

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