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Perfeccionismo na psicologia: causas e como superá-lo

 
Por Irene Alabau, Psicóloga. 5 fevereiro 2021
Perfeccionismo na psicologia: causas e como superá-lo

Perfeccionismo é uma das palavras que se usa em contextos cotidianos para descrever as pessoas que nunca estão totalmente satisfeitas com o que fazem e são muito cuidadosas na realização das tarefas e seus detalhes. No entanto, o perfeccionismo em psicologia é um traço de personalidade complexo e com muitas nuances. Além disso, existem inúmeras causas que poderiam explicar sua origem, assim como uma série de estratégias para uma melhor gestão do perfeccionismo. Se você quer saber mais sobre o perfeccionismo, continue lendo este artigo de Psicologia-Online: O perfeccionismo em psicologia: causas e como superá-lo.

Perfeccionista: significado

Etimologicamente, a palavra perfeição provém do latim “perfectio”, cuja tradução seria “ação de deixar algo finalizado”. O perfeccionismo é um traço de personalidade complexo. Em termos gerais, é definido como a aplicação de altos e exigentes padrões ou critérios de desempenho, em combinação com uma autoavaliação negativa se os critérios estabelecidos não forem atingidos pela pessoa.

É um traço de personalidade considerado multidimensional, ou seja, composto por vários aspectos ou facetas. Alguns dos componentes que constituem o perfeccionismo ou sintomas do perfeccionismo são os seguintes:

  • Elevadas exigências pessoais, existe uma estreita relação entre a autoexigência e o perfeccionismo;
  • Alta preocupação em cometer erros;
  • Dúvidas sobre as ações;
  • Organização;
  • Ordem;
  • Responsabilidade;
  • Capacidade de esforço.

O perfeccionismo não é positivo ou negativo em si, mas, sim, é considerado que algumas de suas facetas ou componentes podem ser adaptativos ou desadaptativos. Portanto, a positividade ou negatividade do perfeccionismo dependerá do contexto, da intensidade e da interação com outros traços de personalidade.

Da mesma forma, não é categórico, tem ou não se tem perfeccionismo, mas varia em maior ou menor quantidade dependendo da pessoa.

Perfeccionismo na psicologia

Historicamente, o perfeccionismo tem sido valorizado e conceituado de um ponto de vista negativo. No entanto, durante anos foi e continua sendo objeto de estudo em psicologia devido a sua complexidade e variabilidade de manifestações. Atualmente, considera-se que o perfeccionismo pode ser dividido em dois fatores: preocupações perfeccionistas e esforços perfeccionistas. Esses dois fatores dão lugar à classificação de dois tipos de perfeccionismo: o perfeccionismo desadaptativo e o perfeccionismo adaptativo, que seriam os dois extremos de um contínuo.

Preocupações perfeccionistas

O primeiro fator é aquele que tem sido associado com o perfeccionismo negativo e disfuncional. Engloba geralmente a preocupação por ter erros, o perfeccionismo socialmente exigido ou imposto, a elevada autocrítica e a discrepância entre os padrões exigentes pessoais e os resultados alcançados.

É considerado desadaptativo devido à alta relação entre este perfeccionismo e ansiedade, depressão, transtornos de comportamento alimentar, transtorno obsessivo compulsivo, ansiedade social, etc.

Este tipo incluiria pessoas com personalidade perfeccionista que apresentam reações exageradas de frustração, tristeza e/ou raiva diante do que consideram um fracasso, por mínimo que seja. É um perfeccionismo obsessivo no qual as pessoas monitoram e prestam atenção excessiva ao seu próprio desempenho. Também são muito sensíveis e vulneráveis às críticas e erros. Elas tendem a ter baixa autoestima e se percebem como tendo poucas capacidades e habilidades em geral.

Esforços perfeccionistas

Por outro lado, os esforços perfeccionistas aludem ao aspecto positivo e mais saudável do perfeccionismo. Refere-se à busca de realizações, ao desejo de atingir as metas estabelecidas e a busca pelo aprimoramento e superação pessoal. O perfeccionismo adaptativo está presente em pessoas com uma personalidade perfeccionista caracterizada pelo estabelecimento de metas altas, mas realizáveis e a existência de critérios exigentes, mas não excessivamente rígidos. Apresentam uma tendência à ordem e a organização, conhecimento dos próprios limites, e mesmo buscando a excelência e superação pessoal, se não alcançarem suas metas, mantêm a motivação pelo esforço e a ambição, não caindo em autoavaliação negativa e sensação de fracasso.

Portanto, a personalidade perfeccionista pode apresentar fatores adaptativos e desadaptativos, não é negativa ou positiva em si mesma. No entanto, um perfeccionismo obsessivo pode, por um lado, levar a problemas psicopatológicos e afetar a vida social. Já que as pessoas com um perfeccionismo excessivo tendem a ser hostis com as outras pessoas e são muito sensíveis ao que façam ou digam sobre elas.

Também existe um vínculo sólido entre perfeccionismo e ansiedade: as pessoas com elevado perfeccionismo apresentam um excesso de comportamentos de verificação e planejamento, bem como de comparação com outras pessoas, nas quais tendem a se perceber como inferiores ao demais.

Perfeccionismo na psicologia: causas e como superá-lo - Perfeccionismo na psicologia

Causas do perfeccionismo

A seguir, explicamos algumas das causas do perfeccionismo ou fatos que foram identificados como precursores do perfeccionismo:

  • Predisposição genética, ou seja, existe presença biológica do traço de ansiedade de personalidade.
  • Estilo parental e maternal autoritário, portanto, existe um excesso de exigências desde a infância. Os meninos e as meninas neste ambiente familiar tendem a tornar-se muito exigentes e desenvolver uma personalidade perfeccionista, pois geralmente os pais punem os erros e muitas vezes de forma abusiva. Assim, as crianças aprendem que os erros não serão tolerados e acreditam que a única maneira de conseguir amor e aprovação de seu pai e/ou mãe é através da excelência e complacência.
  • Crescer em um ambiente onde se recebe elogios de maneira excessiva, faz com que a pessoa se acostume a esses níveis tão altos de elogios e sua autoestima chega a depender deles. Essa dependência gera uma alta pressão interna por conseguir elogios externos como mecanismo de defesa e manutenção da autoestima.
  • Receber humilhações, ridicularização e/ou desprezo desde a infância, faz com que a pessoa desenvolva uma autoestima baixa e sentimentos de inutilidade e fracasso que tenta compensar através de um alto desempenho. Além disso, desenvolve um excesso de vigilância em relação aos seus próprios comportamentos, com o objetivo de controlar se atendem aos critérios autoimpostos.
  • Comparações com os outros: crescer em um lar em que um ou mais membros da família são muito bem sucedidos e as comparações são constantemente feitas. Neste caso, existe um alto padrão de desempenho dentro da família, além de critérios exigentes, pelos quais a pessoa gera um sentimento de inferioridade pela comparação. Essa orientação para a comparação tende a ser mantida na idade adulta, de forma que a pessoa se comparará com pessoas de sucesso, comparações nas quais se sentirá desvalorizada. Da mesma forma, buscará se assemelhar a outros modelos ou protótipos idealizados de pessoa, incapaz de ser consciente de suas virtudes e pontos fortes.
  • A criança com pais e/ou mães perfeccionistas também pode levar ao desenvolvimento do perfeccionismo, já que são modelos e referência dos filhos e filhas, que aprendem por observação dos comportamentos e estilos de pensamento da família.
  • Como no ambiente familiar, as escolas também podem potencializar o perfeccionismo através de padrões acadêmicos muito exigentes, severos e autoritários. Portanto, os alunos podem interiorizar esses padrões de exigência e aplicá-los em outras áreas de sua vida.
  • A baixa tolerância à frustração também pode influenciar no perfeccionismo. A tolerância à frustração está relacionada com a tolerância e aceitação de certo nível de imperfeição. Se uma baixa tolerância à frustração for desenvolvida, uma conquista pode não ser reconhecida se não for totalmente perfeita de acordo com os próprios critérios.
  • Elevado neuroticismo, visto que as pessoas com níveis elevados de neuroticismo apresentam uma predisposição ao desenvolvimento de uma personalidade perfeccionista. Isto porque o neuroticismo está relacionado com a tendência à culpa e à preocupação, fatores que podem levar a um estilo perfeccionista.
  • Cultura da competitividade, na qual as pessoas são valorizadas com base em seus resultados, conquistas e sucessos. O que é considerado sucesso ou não é estabelecido na sociedade por convenção social. Assim, as pessoas buscam atender aos elevados critérios de sucesso impostos externamente e socialmente. O ajuste ou não a esses critérios externos tem um grande peso na autoavaliação da pessoa. Da mesma forma, a comparação constante e o destaque em relação às outras pessoas são promovidos.

Como superar o perfeccionismo

Não existe uma intervenção específica para o perfeccionismo desadaptativo, uma vez que não é caracterizado como um transtorno mental. No entanto, é possível realizar um tratamento do perfeccionismo visando trabalhar os componentes ou elementos do perfeccionismo que são disfuncionais. Este tratamento geralmente aborda os pensamentos e comportamentos relacionados com o perfeccionismo, bem como o desenvolvimento da autocompaixão em relação aos erros e fracassos.

Por um lado, a intervenção se concentra em que a pessoa seja capaz de identificar aqueles pensamentos ou distorções de pensamento que estão na base do perfeccionismo. Algumas dessas distorções cognitivas são o pensamento catastrófico (por exemplo “se eu cometer um equívoco ao falar, eles irão rir de mim e nunca vão querer se relacionar comigo”) ou o pensamento dicotômico ou tudo ou nada (“eu tive um fracasso no trabalho, eu fracassei por completo”). Depois dessa identificação, tenta-se fazer com que a pessoa seja capaz de substituir esses pensamentos por outros mais realistas e úteis, enfatizando a utilidade desses novos pensamentos.

Por outro lado, busca-se que a pessoa seja capaz de ter perspectiva e perceber e julgar a si mesmo do ponto de vista exterior e não de seus próprios padrões. São realizados exercícios orientados ao desenvolvimento da autocompaixão, nos quais a pessoa com perfeccionismo fala consigo mesma e se julga como se fosse um amigo, desenvolvendo uma maior flexibilidade e compreensão por si mesma.

Finalmente, a técnica de exposição diante das situações temidas pela pessoa pode ser utilizada para reduzir esse medo e ansiedade progressivamente. Nessas exposições, a pessoa realiza pequenos erros de propósito e gradativamente, para enfrentar o medo de ser imperfeito. Gradualmente, espera-se que o desconforto diante da imperfeição diminua e se sintam confortáveis diante de um nível maior de tolerância ao erro. Recomenda-se realizar exercícios de relaxamento e respiração para ajudar a diminuir os níveis de ansiedade. Também com esta exposição, os pensamentos catastróficos que as pessoas perfeccionistas possuem são colocados à prova, porque veem que as consequências nefastas que anteciparam não se tornam realidade.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Bibliografia
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