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Simone de Beauvoir e psicanálise: resumo, ideias e contradições

 
Por Julia Latorre. 10 julho 2020
Simone de Beauvoir e psicanálise: resumo, ideias e contradições

'O ponto de vista psicanalítico' é o segundo capítulo da primeira parte do volume 1 do livro 'O Segundo Sexo', de Simone de Beauvoir, lançado em 1949. A partir das ideias expressadas nesse capítulo é possível entender a visão de Simone de Beauvoir sobre a psicanálise, contradizendo ideias importantes da teoria de Freud e outros psicanalistas. Logo na introdução do capítulo a pensadora explica que sua intenção não é criticar a psicanálise como um todo, mas sim 'examinar a sua contribuição ao estudo da mulher'.

Para ampliar a discussão e observar alguns pontos importantes e polêmicos, neste artigo de Psicologia-Online nos dedicamos ao tema Simone de Beauvoir e psicanálise: resumo, ideias e contradições. Boa reflexão!

Simone de Beauvoir e psicanálise: principais ideias sobre Freud

A própria autora assume que essa não será uma análise fácil pois não se trata de uma temática simples. Ela chega a abordar a psicanálise como se fosse uma religião tal qual o cristianismo ou marxismo, segundo ela, com todos os seus conceitos rígidos mas uma 'elasticidade emabaraçante'.

A partir daí, analisemos as ideias centrais do capítulo:

Pensamento 'engessado'

Beauvoir cita a psicanálise como se fosse uma religião justamente pela crença e práticas inflexíveis em relação às críticas que já haviam sobre o tema na época. O falocentrismo e seu simbolismo presente nas teorias já era questionado:

A despeito de uma precisão escolástica, muitas vezes pedante, numerosos equívocos não foram ainda dissipados.

Perspectiva masculina

Assim como em todo o livro, em suma, o que Simone de Beauvoir mais problematiza na psicanálise de Freud é o ponto de vista masculino como universal e o consequente posicionamento das mulheres como o outro. Em seu primeiro momento, a psicanálise foi pensada para um homem e por um homem, deixando a masculinidade como se fosse algo neutro e universal:

Freud não se preocupou muito com o destino da mulher; é claro que calcou a descrição do destino feminino sobre o masculino, restringindo-se a modificar alguns traços'

Segundo ela, as mulheres foram tratadas como menos complexas ou até incompletas, como veremos com o complexo da castração e a diferença na complexidade ao descrever o Complexo de Édipo e o Complexo de Electra.

Estranhamento da líbido feminina

É com precisão que Simone de Beauvoir na psicanálise questiona a visão de Freud em relação à líbido e sexualidade feminina já que Freud afirma que a líbido tem uma essência masculina em um sua originalidade. Ele acredita que a líbido masculina se resume ao pênis enquanto as mulheres têm dois sistemas eróticos o vaginal e o clitoriano. A partir dessa fala, aponta a visão masculina quanto ao sistema erótico feminino duplo, já que para as mulheres a sensação é apenas uma:

Há somente uma etapa genital para o homem enquanto há duas para a mulher; ela se arrisca bem mais do que ele a não atingir o termo de sua evolução sexual, a permanecer no estágio infantil e, consequentemente, a desenvolver neuroses.

Entenda quais são as fases do desenvolvimento psicossexual, segundo Freud.

Complexo de castração

Se para Freud 'a mulher se sente um homem mutilado', para Beauvoir isso já implica em uma visão de superioridade masculina. Ou seja, para ele quem não tem pênis, é menor. Freud aponta e justifica um complexo de inferioridade feminino pela ausência do pênis, sem considerar qualquer fator histórico, social ou estrutural.

Superioridade masculina

Não é apenas uma questão de perspectiva, mas também de tratar o homem como superior. 'O Segundo Sexo' inteiro conta com citações de Pierre Bourdieau e sua obra 'A Dominação Masculina', que também é pano de fundo neste capítulo ao considerarmos o 'ser mulher' quase como uma sentença para Freud.

Simone de Beauvoir e a psicologia de Alfred Adler

Se você leu o Segundo Sexo vai perceber que praticamente metade do capítulo 'O ponto de vista psicanalítico' tem as suas críticas explícita às ideias de Freud, o pai da psicanálise. Apesar disso, Beauvoir cita Alfred Adler, psicólogo fundador da psicologia do desenvolvimento individual que esteve ao lado da Freud no embasamento de suas ideias, mas logo se distanciou ao alegar algumas divergências na forma de pensar, são elas:

Vergonha da feminilidade

Diferente de Freud, Adler tinha um ponto de vista mais sociológico e menos baseado na sexualidade. Mesmo assim, ele também fala em complexo de inferioridade mas o justifica como uma 'vergonha da feminilidade', refutando o complexo de castração:

Não é ausência de pênis que provoca o complexo, e sim o conjunto da situação; a menina não inveja o falo a não ser como símbolo dos privilégios concedidos aos meninos;

Determinismo

Para Beauvoir, um dos problemas da teoria de Freud e Adler é o determinismo em ambos os discursos. Ou seja, explicam que as coisas são assim, mas não explica o porquê disso e que esse é o destino feminino. Não é de se estranhar tal questionamento da teórica que afirma que 'não se nasce mulher, torna-se mulher' contra uma linha de pensamento 100% baseada nos órgãos genitais ou na inveja dos privilégios masculinos.

Contradições das teorias psicanalíticas, segundo Beauvoir

Na elaboração desse capítulo, a autora também pensou em como contrapor as confirmações empíricas para as teorias psicanalíticas. A argumentação dela se inicia questionando o determinismo anatômico, cuja única justificativa é autoridade de Freud, e os pontos fracos que não sustentam ou explicam a sua teoria.

Ela justifica que os estudos de caso que comprovam a psicanálise, na verdade, podem ser sustentados por um ponto de vista muito mais social do que anatômico:

Se o método psicanalítico é muitas vezes fecundo, apesar dos erros da teoria, é porque há em toda história singular dados cuja generalidade ninguém nega: as situações e as condutas repetem-se;: é no seio da generalidade e da repetição que surge o momento da decisão'

E logo adiante a autora completa:

Em dada época, as técnicas, a estrutura econômica e social de uma coletividade descobrem, a todos o seus membros, um mundo idêntico; haverá também uma relação constante da sexualidade com as formas sociais: indivíduos análogos, colocados em condições análogas; essa analogia não cria uma universalidade rigorosa, mas permite encontrar tipos gerais nas histórias individuais.

Vale ressaltar que a autora não nega o método da psicanálise e suas contribuições fecundas, mas refuta a sua teoria e superficialidade ao sustentar as ideias, além da sexualidade limitada.

Podemos entender que Beauvoir se posiciona de maneira a explicar que o sexo não se resume ao falo ou a falta dele, mas a um conjunto estrutural e coletivo, diferente do que a psicanalise teoriza. Para ela, é preciso considerar a relação das pessoas com o mundo, finaliza:

Para nós, a mulher define-se como ser humano em busca de valores no seio de um mundo da valores, mundo cuja estrutura econômica e social é indispensável conhecer; nós a estudaremos numa perspectiva existencial através de sua situação total.

Feminismo e psicanálise

Ainda que Beauvoir tenha sido uma das pioneiras a questionar a psicanálise sob um ponto de vista feminista, à discussão não se resume a esse capítulo do Segundo Sexo. O livro foi lançado em 1949 e o avanço dos estudos feministas trouxe outras autoras e questionamentos mais interseccionais e atuais sobre a psicanálise.

Tais críticas não significam que hoje em dia a psicanálise não possa ser realizada sob uma perspectiva feminina. Existem autoras e psicanalistas que trabalham sob essa ótica aplicando a psicanalise com as intersecções necessárias. Afinal, se os estudos de Freud não fossem tão importantes para a história da humanidade, Beauvoir jamais haveria dedicado um capítulo inteiro de sua obra-prima para analisá-lo.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Bibliografia
  • DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 2014.

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