O teste da família é uma prova de personalidade projetiva que é administrada entre os 5 e os 16 anos de idade. Nessa prova, se analisa a percepção que a criança tem da sua família, assim como o lugar que ela ocupa na mesma. O teste do desenho da família foi criado por Porot (1952) e baseado no desenho livre que as crianças tanto gostam. Luis Corman (1961) introduziu modificações importantes nas instruções que eram dadas à criança.
Porot dava instruções precisas à criança como "desenhe a sua família", uma vez que lhe interessava conhecê-la como era representada e não como era de verdade. Corman, por sua vez, dizia "desenhe a sua família, uma família que você imagina". A instrução era mais vaga e menos precisa, já que lhe interessava analisar tendências inconscientes que se expressavam mais facilmente dessa forma.
Nesse artigo de Psicologia-Online, te mostraremos como aplicar essa técnica e que elementos básicos podem ser interpretados no teste da família - Teste do desenho da família: interpretação e aplicação.
Teste da Família: estudos atuais e marco teórico
Em outros estudos mais recentes:
- Korbman (1984) na prática clínica, o pedido era “desenhe a sua família”, toda ela, crianças mais pequenas costumam projetar-se abertamente.
- Bums e Kaufman (1972) apresentam uma versão modificada do Desenho da Família: O Desenho Cinético da Família, para a qual sugerem critérios de avaliação.
- J.M.Luis Font (1978) O pedido é “desenhe a sua família” e compartilha o objetivo do teste com Corman: medir a relação que a criança tem com os diferentes membros da sua família.
- Quanto ao conteúdo. J.M.Lluis analisa as características dos desenhos, a valorização, desvalorização e componentes hierárquicos. Corman realiza uma análise do plano gráfico, estrutural e conteúdo.
- Atualmente, é aplicado o Teste da Família de Corman, uma vez que o seu foco é mais orientado para a análise do desenho em si e à busca dos verdadeiros processos inconscientes.
Por outro lado, a evolução do teste tem sido marcada por contribuições significativas de diversos pesquisadores. O uso dessa ferramenta em ambientes clínicos modernos permite que psicólogos obtenham uma visão mais rica e detalhada das dinâmicas familiares vivenciadas pelas crianças. Isso se torna especialmente relevante quando se considera a diversidade de arranjos familiares e contextos culturais que influenciam a percepção infantil.
Desenhos da família: Diferentes abordagens
Embora o coletivo psicológico tenha certas discrepâncias no que diz respeito às teorias psicodinâmicas, o foco e o objetivo prioritário do teste da família é o valor diagnóstico. Analisando esta técnica projetiva, é possível analisar as dificuldades de adaptação do meio familiar, os conflitos edipianos e de rivalidade paterna.
Além disso, reflete o desenvolvimento intelectual da criança e a sua maturação, embora não seja o mais relevante ou preciso. É uma técnica de exploração afetiva infantil das mais valorizadas dentro das provas projetivas.
Este teste avalia clinicamente como a criança percepciona as relações entre os membros da sua família desde um ponto da subjetividade, assim como a sua inclusão na mesma e o lugar que ocupa, além da comunicação entre os distintos membros da família e a sua própria. Todos os autores coincidem em considerar necessário o interrogatório ou conversa com a criança depois de finalizar o teste e antes de interpretá-lo. Também é importante tomar notas durante a execução da mesma, a primeira figura que aparece, os rabiscos, os borrões, o tempo que leva para realizar determinada figura, as dúvidas e os retrocessos.
É possível fazer o teste da família em adultos?
É possível que surja esta dúvida na hora de aplicar o teste aos mais pequenos. Embora os objetivos em adultos não sejam do tom de diagnóstico, podemos fazer o teste da família em adultos. Neste caso, ele servirá como ferramenta complementar a entrevistas clínicas e outros questionários e testes.
Além disso, é crucial entender que a aplicação do teste em adultos pode revelar aspectos ocultos ou reprimidos que influenciam o comportamento atual. Assim, o teste pode ser um recurso valioso para terapeutas que buscam compreender padrões de comportamento repetitivos ou dificuldades relacionais enraizadas em experiências familiares passadas.
Teste da família: Aplicação infantil
Luis Corman aplica o teste da família da seguinte forma:
- A criança recebe uma folha de papel e lhe pedem que "desenhe uma família" ou que "imagine uma família que você inventou e desenhe. Se a criança não entende a proposta, o pedido é "Desenhe tudo o que você quiser, as pessoas de uma família e, se você quiser, objetos e animais."
- Quando a criança terminar o desenho, deve ser elogiada e lhe é pedido que explique o desenho, anotando a explicação e fazendo perguntas como: Onde estão? Que fazem nesse lugar? Quem é o melhor de todos na família e por quê? Qual é o pior? Por quê? Qual é o mais feliz e por quê? Quem você prefere nessa família? Se você fizesse parte dessa família, quem você seria?
Essa abordagem não só promove a expressão artística, mas também incentiva a criança a refletir sobre suas escolhas e sentimentos em relação à sua família. É importante que o psicólogo ou educador conduza a sessão de forma empática e respeitosa, criando um ambiente seguro para que a criança se sinta à vontade para compartilhar suas percepções e emoções.
Teste do desenho da família: interpretação
Em primeiro lugar, a interpretação do conteúdo é dividida da seguinte forma:
Tamanho dos corpos: este é um dos elementos mais facilmente analisados, quando um dos corpos é maior e se destaca dos demais, essa figura é muito importante para a criança. Se, ao invés, existe um personagem menor, eles podem refletir distanciamento emocional e pouco afeto.
Tamanho das diferentes partes do corpo: a cabeça, o nariz, os olhos, a boca, as pernas... cada elemento é potencialmente analisável e projeta uma parte do nosso subconsciente. Uma cabeça grande, por exemplo, pode ser símbolo de egocentrismo, assim como uma boca com dentes grandes ou afiados pode denotar agressividade reprimida.
Outros elementos: manchas na cara podem refletir ansiedade ou baixa autoestima, apagar algum dos personagens denota impulsividade e rancor em relação a um personagem.
Por outro lado, Corman faz uma interpretação da família baseando-se na análise de três planos:
- Plano Gráfico
- Plano de estruturas formais
- Plano do conteúdo
Em seguida, enumeraremos cada um dos elementos que são analisados e interpretados no teste da família.
Além desses aspectos, é essencial considerar o contexto em que o desenho foi realizado. As cores utilizadas, a disposição dos personagens no espaço e até mesmo a pressão exercida pelo lápis podem fornecer pistas valiosas sobre o estado emocional da criança e suas relações familiares.
Linha
A forma com que a criança traça o desenho pode chegar a definir características sobre a sua sensibilidade, hostilidade, sociabilidade, em geral, sobre o temperamento do menor.
Linhas suaves e contínuas podem sugerir uma personalidade calma e equilibrada, enquanto traços mais fortes e interrompidos podem indicar tensões internas ou dificuldades de comunicação. É importante que o analista considere esses elementos em conjunto com o restante do desenho para obter uma interpretação mais completa.
Ritmo do desenho
O ritmo com que a criança desenha também pode oferecer insights importantes. Desenhos feitos rapidamente podem indicar impulsividade ou ansiedade, enquanto aqueles feitos com mais cuidado e lentidão podem refletir uma natureza meticulosa ou hesitante. Observar o ritmo do desenho ajuda a compreender melhor as emoções subjacentes que a criança pode estar experimentando durante o processo criativo.
Setor da página
Para saber como interpretar o teste da família de Corman corretamente é necessário analisar como a criança usa o espaço que lhe é dado para fazer o desenho.
O posicionamento dos elementos na página pode refletir a percepção que a criança tem de seu lugar no mundo. Desenhos concentrados no topo da página podem indicar aspirações elevadas ou uma visão otimista, enquanto aqueles próximos à base podem sugerir insegurança ou pessimismo. Além disso, o uso do espaço pode revelar como a criança percebe a proximidade ou a distância emocional entre os membros da família.
Plano das estruturas formais
A forma do desenho completo é índice de maturidade. Neste caso, o que analisamos é o conjunto do desenho em si.
Crianças com atitudes, emoções e pensamentos dentro da norma:
- Sensorial: Predomínio das linhas curvas. Espontâneo. Livre de movimentos e expressões. Os personagens se relacionam entre si.
- Racional: Personagens estereotipados, rigidez, educação educativa autoritária.
Além dessas categorias, é importante observar a coerência interna do desenho. Elementos que não se encaixam ou parecem fora de contexto podem indicar conflitos internos ou contradições que a criança está processando. A integração harmoniosa dos elementos sugere uma percepção mais equilibrada e integrada do ambiente familiar.
Teste do Desenho da Família: interpretação do conteúdo
Analisemos agora o aspeto do conteúdo:
A) Angústia perante um perigo exterior: Ambiente ameaçador
- Regressão: Volta a uma situação menos ameaçadora.
- Deslocamento: Quando a criança que desenha é menino e se identifica com o desenho de uma menina ou viceversa. identificações errôneas com o próprio papel sexual.
- Inversão de papéis: Se situa como o menor de todos.
B) Angústia perante um perigo interior (agressividade, tendências sexuais, culpabilidade)
- Disfarça a agressividade: desenha armas ou animais selvagens
- Deslocamento e formações reativas: Não se apresenta tal como é, atribui a agressividade, maldade a outro, se transforma no contrário.
- Auto-desvalorização: Se identifica com o menos bem desenhado, representando-se a si mesma como atitude de submissão e desvalorização.
- Auto-eliminação: Não se desenha.
- Auto-negação: se nega a si mesma.
C) Preferências e identificações
Identificação real: quando o personagem com o qual se identifica corresponde ao seu lugar na família.
Tendência ou desejo: se identifica com personagens diferentes dele, nos quais vê seus sonhos e desejos realizados.
Defesa: se identifica com algum personagem da família com o qual se defende da angústia que sente.
D) Mecanismos de defensa típicos do teste
Valorização do personagem principal:
A forma que a criança tem de se defender contra a angústia é constatada quando:
- Se desenha a ela mesma primeiro
- É a maior personagem em tamanho
- É a que tem mais detalhe
- Ocupa uma posição central
- Destaca no interrogatório
- Se identifica com o personagem com frequência
Desvalorização:
A forma mais frequente que a criança usa para expressar a sua agressividade é quando se identifica com:
- O menor dos personagens
- O desenhado mais longe
- O último
- O personagem não identificado, sem idade ou nome
- O mais incompleto
Relação à distância:
- Quando tem dificuldades com os seus pais, se desenha longe deles
Símbolos de animais:
Significa que pode haver agressividade se os animais que desenha são selvagens.
Além de considerar esses fatores, é importante prestar atenção aos detalhes que podem parecer insignificantes à primeira vista, como pequenos rabiscos ou elementos que a criança adiciona depois de completar o desenho principal. Esses detalhes podem ser reveladores de pensamentos ou sentimentos que a criança não consegue expressar verbalmente.
Teste do Desenho da Família: resumo
As técnicas projetivas e, concretamente, o teste do desenho da família, permitem à criança expressar os seus conflitos, tensões, desejos e necessidades em relação ao âmbito familiar com linguagem gráfico.
A observação e o estudo detalhado do desenho permitem conhecer a família da criança tal como ela a representa, o que é mais importante que saber como ela é realmente.
Interpretação do teste da família em adultos
É importante comentar que, apesar de estar mais centrada para ser aplicada em crianças, esta técnica projetiva também pode ser aplicada à população adulta. Se recomenda realizar o teste em adultos como ferramenta de ajuda na terapia de casal, adultos jovens e em casos nos quais os conflitos familiares influenciam a manutenção de um ma-estar psicológico no adulto. O protocolo de aplicação será praticamente o mesmo que no caso dos menores.
Ademais, ao aplicar o teste em adultos, os profissionais podem obter uma compreensão mais profunda das influências familiares que moldaram as atitudes e comportamentos atuais. Isso pode ser particularmente útil em terapias focadas em resolver questões de infância que continuam a impactar a vida adulta. A interpretação dessas projeções gráficas pode revelar padrões de comportamento e crenças que, muitas vezes, operam de maneira subconsciente.
Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.
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- L. Corman ; El test del dibujo de la familia. Editorial Kapelusz, Buenos Aires
- Jimenez Gómez F; Técnicas de evaluación psicológica Universidad de Salamanca ( curso 2002-03)
- Esquimel Ancora Fayne; Psicodiagnóstico clínico en el niño. Manual moderno 1999