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Vício em comida: sintomas e como tratar

Vício em comida: sintomas e como tratar

Nas últimas décadas, um modelo de vício alimentar ganhou muita importância na nossa sociedade, através de debates controversos que giram em torno à questão de se determinados alimentos que têm um elevado teor calórico ou ingredientes específicos, como o açúcar, têm um potencial viciante similar ao das substâncias de abuso. Muita gente com transtornos alimentares como obesidade ou compulsão alimentar podem apresentar padrões alimentares que têm caraterísticas viciantes e portanto, são similares aos transtornos por uso de drogas a um nível biológico e comportamental.

O vício em comida ainda não é reconhecido por manuais de diagnóstico. No entanto, devido à observação de tais padrões em uma parte significativa da população, criou-se a escala de avaliação Yale Food Addiction Scale (YFAS). Este teste psicológico ajuda no diagnóstico de transtornos de vício em comida quando se apresentam três sintomas de vício e surge mal-estar ou uma deterioração significativa.

Se você estiver interessado em conhecer o transtorno do vício em comida, neste artigo de Psicologia-Online explicaremos o vício em comida: sintomas e como tratar.

Vício em comida: o que é

O que é o vício em comida? O vício em comida é uma doença crônica e recorrente, com implicações cerebrais. A definição do vício em comida é a necessidade de procurar e ingerir compulsivamente determinados alimentos, sem ter em conta as consequências nocivas que têm, como as implicações na saúde que acarretam os alimentos com altos níveis de açúcar ou de gordura.

Estes comportamentos viciantes podem aparecer em diferentes transtornos alimentares como a compulsão alimentar, a bulimia nervosa ou a obesidade, e embora esteja relacionado com a obesidade, as pessoas com peso normal também podem sofrer de vício em comida. Foram reconhecidos mecanismos neurobiológicos implicados nesses padrões viciantes, mas o vício em comida ainda não é considerado um transtorno independente.

Compulsão alimentar

As pessoas que sofrem vício em comida, os comedores compulsivos, têm a necessidade de estar comendo compulsivamente e quando não o fazem, pensam na refeição seguinte, experimentando constantemente vontade de determinados alimentos. Estas pessoas, os comedores compulsivos, ingerem grandes quantidades de comida durante espaços de tempos muito reduzidos e posteriormente, se sentem culpados por isso.

É importante salientar que o comportamento dos comedores compulsivos tem um alto conteúdo emocional, pois a comida é a compensação das emoções negativas como a tristeza ou a ansiedade. No entanto, não apenas por saciar o mal-estar com os alimentos se deve considerar a uma pessoa viciada em comida. Esta necessidade é produto de mecanismos neurobiológicos, pois determinados alimentos têm influência em sistemas cerebrais implicados no bem-estar. Contudo, estes alimentos podem conter determinados componentes viciantes que podem causar o desenvolvimento do vício em comida.

Vício em comida: causas

As causas do vício em comida se relacionam com mecanismos neurobiológicos. Os sistemas de recompensa do sistema nervoso central são controlados por neurotransmissores responsáveis dos comportamentos aprendidos e responsáveis de responder a fatores de prazer ou de descontentamento. Determinadas substâncias viciantes produzem um efeito no sistema límbico, produzindo uma associação artificial de prazer. Se estas substâncias ou alimentos são consumidas regularmente, afetam diretamente ao sistema límbico, pois produzem o início do processo de adição. Alguns alimentos que podem afetar este sistema são os açúcares ou a gordura. Os comportamentos viciantes afetam ps circuitos cerebrais como o sistema dopaminérgico, o opioide, o serotoninérgico e ao glutamato, provocando assim as sensações de prazer.

Por outro lado, importa salientar que a ansiedade desempenha um papel fundamental nas causas do vício em comida. Quando a pessoa está estressada ou ansiosa, o seu consumo aumenta e prefere alimentos que contenham muitos açúcares, altos níveis de gordura ou sal. Este conjunto de alimentos produzem sensação de bem-estar pois atuam de forma similar às endorfinas. Quando esta sensação de bem-estar diminui, a ansiedade aparece de novo pela culpabilidade do excesso cometido e a pessoa precisa de comer outra vez, criando assim um círculo vicioso. Portanto, as causas do vício em comida são:

  • Gerir a ansiedade com alimentos.
  • O efeito do consumo destes alimentos no sistema de recompensa cerebral.
  • Os sentimentos de culpa.

Vício em comida: sintomas

Os sintomas do vício em comida servem para identificar este transtorno. Os sintomas que apresentam os comedores compulsivos são os seguintes:

  • Comer em grandes quantidades de forma recorrente, pelo menos duas vezes por semana durante um período de seis meses ou mais. Os comedores compulsivos podem comer até se sentir desconfortavelmente cheios.
  • Perda do controle. Durante o excesso alimentar, a pessoa sente que não pode controlar a ação.
  • Comer excessivamente rápido. A sensação de perda de controle é um sintoma típico dos vícios.
  • Comer sem fome real. Ingerir comida mesmo quando não tem fome ou está cheio é outro dos sintomas do vício em comida.
  • Comer às escondidas ou sozinho. Este sintoma do vício em comida é devido ao sentimento de culpabilidade e vergonha.
  • Problemas gastrointestinais. Depois do excesso podem surgir inchaço, dores por gases, diarreias, indigestão ou cãibras abdominais.
  • Culpabilidade. O excesso pode causar nos comedores compulsivos sentimentos de culpa, depressão ou decepções posteriores.
  • Ansiedade. O comportamento compulsivo gera angústia, mas a pessoa não consegue deixar de fazê-lo. Este é um dos sintomas mais caraterísticos do vício em comida.
  • Tentativas de parar o comportamento sem sucesso. Realização de dietas frequentes, normalmente sem variações de peso.

Vício em comida: consequências

As consequências do vício em comida são diversas e podem se diferenciar em consequências psicológicas e consequências físicas.

No que se refere às consequências do vício em comida de tipo físico, a principal doença que pode derivar das farras é a obesidade. O vício em comida e a obesidade podem ocasionar problemas cardíacos, o aparição de diabetes tipo 2, doenças gastrointestinais e até determinados transtornos respiratórios.

Por outro lado, as consequências do vício em comida de tipo psicológico são várias. Para além de gerar elevados picos de estresse, ansiedade e culpabilidade, o vício em comida se relaciona com o aparecimento dos transtornos do estado de espírito, como transtornos depressivos e bipolares, transtornos de ansiedade e com o início de consumo de substâncias.

Vício em comida: sintomas e como tratar - Vício em comida: consequências

Vício em comida: como tratar

O vício em comida precisa de um tratamento completo. Como mencionamos previamente, o vício em comida não se baseia unicamente em fatores biológicos, mas há uma grande implicação de fatores psicológicos associados ao comportamento alimentar. Por isso, o seu tratamento não se pode estipular unicamente sobre uma dieta para limitar o comportamento e melhorar o estilo de vida.

Em primeiro lugar, o tratamento do vício em comida se deve adaptar às necessidades e caraterísticas individuais de cada pessoa, reunindo as informações necessárias para que nos ajudem a compreender a origem do vício e quais são os fatores que atualmente estão mantendo o comportamento. Uma vez identificado o foco do problema, se podem utilizar distintos tipos de psicoterapia para tratá-lo como a terapia EMDR, a atenção plena (mindfulness) ou as técnicas da terapia cognitivo-comportamental, entre outras.

Como superar o vício em comida? Se a ansiedade e o estresse são fatores predisponentes a estes comportamentos de abuso dos alimentos, se deverá estabelecer um tratamento sobre estes dois fatores. Para isso, será necessário estabelecer as causas geradoras da ansiedade e do estresse, trabalhar sobre elas e aportar à pessoa estratégias para gerir estas emoções com alternativas mais saudáveis, como exercício físico, exercícios de relaxamento ou de respiração.

Aprender a gerir a ansiedade e o estresse tem muita relevância porque podem provocar transtornos psicológicos como transtornos do estado de espírito ou transtornos de ansiedade. Para além disso, os comportamentos compulsivos com a comida geram grandes sentimentos de culpa e vergonha que devem ser abordados para trabalhar a autoestima da pessoa durante o tratamento do vício em comida.

Por outro lado, além dos problemas psicológicos que provoca o vício em comida, podem aparecer grandes complicações físicas, de modo que é imprescindível estabelecer um regime alimentar com aspetos dietéticos e nutricionais realizado por um profissional. O objetivo desta parte do tratamento do vício em comida é ensinar à pessoa hábitos saudáveis, os alimentos viciantes a evitar (como os hidratos de carbono) e combinar a dieta com alimentos e suplementos precursores de dopamina e serotonina. Será necessário realizar um processo psico-educativo em relação à alimentação, ensinando à pessoa a diferenciar entre as sensações de “fome” e “apetite” e os alimentos cujo conteúdo tem princípios viciantes.

Finalmente, é importante salientar que as terapias que se realizam para a remissão do comportamento se podem realizar individualmente e muito frequentemente se tratam em terapia de grupo, a qual contribui a partilhar experiências e diminuir, assim, a vergonha e a culpabilidade face ao problema.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Bibliografia
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Thomas
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