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Erros mais comuns do contato zero

 
Ana Díaz Azorín
Por Ana Díaz Azorín. 1 março 2023
Erros mais comuns do contato zero

Os términos de casais são dolorosos e complexos porque implicam a perda de uma relação importante e uma infinidade de emoções complexas e até mesmo contraditórias. Quando um coração está doente a pessoa atravessa uma tormenta emocional na qual se experimentam simultaneamente sensações como choque, confusão, tristeza, medo, ira, angústia, ansiedade e devastação. O contato zero é uma forma efetiva de controlar estas emoções e processar a ruptura.

Ao não se comunicar com o/a ex, se dá espaço e tempo a ambas as partes para processar o ocorrido e curar a dor emocional após a separação. Este período sem contato é uma excelente oportunidade para melhorar, refletir sobre o passado e ser mais consciente sobre os motivos para terminar uma relação. No entanto, em alguns momentos pode parecer impossível seguir adiante sem se aproximar de seu/sua ex. Neste artigo de Psicologia-Online, te explicamos os erros mais comuns do contato zero.

Índice
  1. Não aceitar o término
  2. Idealizar o passado
  3. Analisar em excesso o término
  4. Romper o contato zero
  5. Tentar manipular, punir e/ou causar ciúmes no/a ex
  6. Não entender sua parte de responsabilidade
  7. Estabelecer limites difusos
  8. Busca de validação externa
  9. Não utilizar o contato zero para progredir
  10. O que acontece se os dois fizerem contato zero
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1. Não aceitar o término

Aceitar um término de relacionamento pode ser muito difícil porque perder alguém com quem se compartilhou uma conexão íntima é muito doloroso. No entanto, não aceitar dificultará a recuperação, o que é o objetivo final do contato zero. Não aceitar a ruptura implica que a pessoa está presa no passado e dificulta o avanço e a recuperação.

Diversos estudos no campo da psicologia mostraram que a ausência de contato com um/a ex diminui a frequência e a intensidade dos pensamentos negativos sobre o término. Isto é, a tristeza e o apego que conserva por seu/sua ex diminuem linearmente com o tempo. Por este motivo, um dos aspectos fundamentais do contato zero é reduzir ao máximo a presença psicológica do/a ex em nossos pensamentos e nossa vida.

Não aceitar a realidade da ruptura revive os pensamentos intrusivos e impede enfrentar a dor que a perda supõe, o que é necessário para curar. Por este motivo, é imprescindível estar disposto a deixar a relação ir, ao menos no momento posterior da ruptura do casal. Manter vivas as experiências e negando a realidade da separação não é possível avançar, apenas retroceder.

2. Idealizar o passado

Após uma ruptura de casal, é comum idealizar a relação e recordar apenas os bons momentos, esquecendo ou minimizando os problemas de desentendimentos. Isto é uma tendência humana natural, já que após a separação de uma pessoa significativa se produz um grande sentimento de perda e vazio emocional, e idealizar a relação pode ajudar a preencher este vazio temporariamente.

No entanto, ao idealizar podemos cair no erro de esquecer e ignorar aqueles aspectos que precipitaram o término, como as discussões constantes, os sentimentos de solidão, as vezes que nosso/a companheiro/a agiram com desdém, as subidas e tom e os nomes pejorativos. Não ter contato com seu/sua ex permite ver a separação de uma maneira mais realista e não como o fim do mundo.

Sem dúvidas será mais fácil superar a relação lembrando tudo aquilo pelo que se terminou, ao invés de nutrir a crença idealizada de ter perdido a relação 'perfeita'.

Erros mais comuns do contato zero - 2. Idealizar o passado

3. Analisar em excesso o término

Ter uma compreensão clara de por que terminou a relação é algo muito importante para nossa capacidade de seguir adiante. No entanto, em algumas ocasiões quando nos oferece uma explicação simples e honesta, a rejeitamos. A dor emocional após uma ruptura amorosa é tão dramática que nossa mente nos faz acreditar que a causa deve ser igualmente dramática. Este instinto pode ser tão poderoso que pode levar inclusive as pessoas mais razoáveis e comedidas a buscar explicações hiperbólicas e teorias de conspiração onde não existem.

Uma das coisas mais difíceis de um término é se perguntar se poderia ter sido diferente ou se poderia ter evitado. As coisas 'que passaram' nos mantêm angustiados e nos fazem sentir culpa. Por exemplo, questionamos se tomamos a decisão correta ou se poderíamos ter feito mais. Todos estes pensamentos nos mantêm presos no passado e nos fazer cair em um ciclo de pensamentos negativos e ruminação.

A realidade é que não há uma explicação sobre a ruptura que vai se mostrar completamente satisfatória o que vai fazer para desaparecer a dor. A racionalidade ou a lógica não podem barrar a dor emocional. Deve evitar se colocar em contato com seu ex para pedir mais explicações sobre a separação de vocês e aceitar a realidade para seguir em frente.

4. Romper o contato zero

A ruptura de casal de certo modo pode se comparar com uma abstinência às drogas devido à forma em que nosso cérebro processa e reage diante da perda de uma relação significativa. Quando estamos em uma relação romântica, nosso cérebro libera substâncias químicas que nos faz sentir bem e nos ajudam a criar um vínculo emocional com nosso/a parceiro/a. No entanto, quando a relação termina, o efeito destas substâncias desaparecem e nosso cérebro enfrenta um período de "abstinência" dessa sensação de bem-estar e felicidade.

Esta é a explicação de por que muitas pessoas rompem o contato zero. A maioria dos dependentes químicos sabem que são dependentes e podem reconhecer sinais de alarme sobre possíveis recaídas que ajudam a preveni-las, mas as pessoas que estão atravessando um desamor não são conscientes de como prejudicam tentativas de se aproximar e se comunicar com o/a ex.

O contato zero é como a abstinência e romper significa um erro porque dificulta a recuperação. Em ambos os casos, a ideia é deixar de depender de uma substância (no caso da dependência) ou um companheiro/a (no caso de uma ruptura amorosa) que causou dano ou tenha sido tóxico para a saúde emocional e física da pessoa. Ao manter o contato zero com um/a ex ou ao deixar as drogas, está se escolhendo cuidar de si mesmo e trabalhar por um futuro mais saudável.

Exemplos de romper o contato zero

Os impulsos por romper o contato zero podem se mostrar quase irresistíveis pela necessidade de aproximação com nosso/a ex. Alguns exemplos comuns de erros ao romper o contato zero são os seguintes:

  • Ligações, mensagens de texto, e-mails, qualquer tipo de comunicação.
  • "Stalkear" suas redes sociais, olhar seus últimos posts, ler comentários em suas publicações, etc.
  • Visitar lugares onde teria um encontro "acidental" com seu ex.
  • Enviar mensagens para felicitar as festas ou aniversários. Por exemplo, no Dia dos Namorados, Páscoa ou Natal.
  • Manter encontros sexuais esporádicos ou contínuos.
  • Perguntar a amigos comuns ou familiares sobre seu/sua ex.

Cada mensagem de texto que envia e cada segundo que passa "stalkeando" seu/sua ex nas redes sociais está alimentando sua dependência, aprofundando a sua dor emocional e complicando sua recuperação.

Erros mais comuns do contato zero - 4. Romper o contato zero

5. Tentar manipular, punir e/ou causar ciúmes no/a ex

O contato zero é uma forma de colocar limites saudáveis e de tomar o controle da própria vida e relacionamentos, é uma ferramenta que serve para proteger a si mesmo, não para manipular, controlar ou prejudicar outra pessoa. Por isso, o tratamento do silêncio, jogos de poder, chantagem emocional, etc. não funciona para ter uma relação mais sadia contigo mesmo e com os outros, incluindo seu/sua ex.

Este tipo de manipulações são uma forma de esquivar dos problemas emocionais latentes e de perpetuar dinâmicas tóxicas. De fato, frequentemente prejudicam mais do que fazem bem, e quando o/a companheiro descobre estas táticas pode abandonar a relação porque ninguém quer sentir sua liberdade cerceada.

Portanto, é um erro tratar de considerar o contato zero como uma técnica ou um truque para manipular, controlar, se vingar ou provocar ciúmes. A melhor maneira de descrever é como um estilo de vida positivo, empoderador e autoafirmativo, arraigado no respeito, amor próprio e a determinação de abandonar uma relação que mesmo que doam não funciona.

Erros mais comuns do contato zero - 5. Tentar manipular, punir e/ou causar ciúmes no/a ex

6. Não entender sua parte de responsabilidade

Outro erro muito comum do contato zero é o que se conhece na psicologia como o "feito de justificação do próprio comportamento". Este fenômeno consiste em que as pessoas tendem a justificar seus próprios comportamentos, enquanto atribuem a responsabilidade dos problemas aos outros. É uma forma de entorpecer o contato zero, visto que se mantêm vivas e acesas emoções intensas como a raiva e se gera um mal-estar contínuo. Isto se converte em um dinâmica prejudicial que impede de seguir em frente e a pessoa não entende sua parte de responsabilidade na separação.

Quando você culpa seu/sua ex com todo o peso da ruptura, se coloca na posição de vítima, como se fosse indefeso e não tivesse nenhuma responsabilidade no término. É possível que seu/sua parceiro/a cometesse erros, mas normalmente as coisas nem sempre são branco e preto.

Demonizar seu ex pode te aliviar a curto prazo, mas a longo prazo apenas gerará ressentimento. Além disso, pode te impedir de ver sua parte de responsabilidade, te privando do acesso ao crescimento pessoal necessário para aprender e não voltar a repetir situação no futuro. Depois disto, é útil se perguntar "Em quais três aspectos posso melhorar para ser um/a companheiro/a melhor no futuro, no caso de uma reconciliação ou com um/a parceiro/a futuro? Sem responsabilidade, não há crescimento, aprendizado ou evolução.

7. Estabelecer limites difusos

A relação entre os limites e o contato zero é estreita, já que ambos se focam em proteger o bem-estar emocional e físico de uma pessoa. Os limites são linhas vermelhas que definem nossa relação com os outros e permitem estabelecer o que podemos tolerar e o que não para nos sentirmos respeitados e seguros. Neste sentido, o contato zero é uma forma específica de colocar em prática estes limites e se afastar de uma pessoa após uma separação para se focar em si mesmo e em superar a dor emocional.

Deste modo, ao estabelecer limites claros e colocá-los em prática através do contato zero, uma pessoa pode proteger sua saúde emocional e física. Também é uma forma de se assegurar que aquilo que nos fez mal não voltará a se repetir. Por exemplo, se alguém estabelece o limite de não tolerar faltas de respeito em uma relação, o contato zero pode ser uma forma efetiva de colocar esse limite em prática. Ao se afastar temporariamente da pessoa ou situação, impede-se que esta situação continue ocorrendo.

Por este motivo, estabelecer limites pouco definidos é um erro porque dificulta colocar em prática o período de contato zero, pode gerar confusão na relação e tornará mais difícil avançar e superar a ruptura.

Erros mais comuns do contato zero - 7. Estabelecer limites difusos

8. Busca de validação externa

Buscar validação externa essencialmente significa buscar a confirmação de algo que não pode se proporcionar a si mesmo. No caso do conato zero, buscar a validação de seu ex pode ser contraproducente se precisa comprovar constantemente se sente algo por você.

Não é possível manter o contato zero, se cuidar, começar a se curar e, em última instância, recuperar o seu ex ou começar um relacionamento com uma pessoa nova se sempre precisa de aprovação ou confirmação que continua sendo importante em sua vida.

Por outro lado, inclusive se obtiver alguma validação externa, é provável que descubra que não é o que esperava sentir. Isto se deve ao fato de que a validação que realmente precisa tem que vir de si mesmo/a, isto é, uma validação interna e não externa.

9. Não utilizar o contato zero para progredir

Quando um relacionamento termina, é possível que desejemos passar a outra coisa o mais rápido possível para evitar enfrentar a dor, sem nos dar tempo para processar realmente o que aconteceu e como nos sentimos a respeito. É natural se sentir incomodado ao ficar sozinho após ter o hábito de ter uma companhia e queremos uma solução fácil, mas se continuar pulando de pessoa em pessoa, apenas repetirá os mesmos erros.

Um dos erros mais importantes do contato zero é deixar o tempo passar ou se evadir sem realizar um progresso em nível mais pessoal. Mesmo que tenha passado tempo, se não progredir durante este período não fará uma mudança real nem avanços significativos. Desta forma, é possível cair nos antigos padrões prejudiciais, como voltar a contatar à pessoa quando ainda não é o momento ou voltar a se relacionar de maneira tóxica.

Progredir durante o contato zero ajuda a evitar estes padrões e a se focar em si mesmo e em tomar o tempo para adquirir, cultivar e praticar habilidades, atividades que te preenchem de significado, propósito e expectativas renovadas. Por sua vez, também fomentará uma versão mais completa e autêntica de si mesmo quando se reencontrar com seu/sua ex ou voltar a se apaixonar por alguém novo e a dinâmica da relação será diferente.

Em resumo, o contato zero é uma oportunidade para refletir sobre si mesmo e sobre as relações passadas, para aprender dos erros e crescer como pessoa. Por exemplo, te facilita refletir sobre o que é essencial e as coisas importantes em sua vida, assim como tomar melhores decisões sobre seus valores, crenças e aquilo que te fornece significado e se sentir realizado.

Erros mais comuns do contato zero - 9. Não utilizar o contato zero para progredir

O que acontece se os dois fizerem contato zero

Os términos sentimentais são complicados e muito complexos. Por isso, o contato zero geralmente é uma boa forma de controlar a emocionalidade intensa e a dor imediata após o término. Se ambas as pessoas envolvidas na separação decidem fazer contato zero, podem surgir várias consequências. Algumas delas podem ser:

  • Possibilitar o espaço e tempo necessários para processar o término e curar as feridas emocionais.
  • Permitir a ambas as pessoas se concentrarem em seu próprio crescimento, metas e desenvolvimento pessoal.
  • Pode ajudar a evitar brigas desnecessárias e discussões que poderiam machucar ainda mais a relação de casal em um momento crítico.

No entanto, o contato zero também pode implicar alguns inconvenientes. Por exemplo, um contato zero indefinido pode significar que já não há como voltar atrás e que a ruptura é definitiva. Se durante este período de reflexão uma ou as duas pessoas chegaram à conclusão de que querem apostar na relação e reconstruí-la, é conveniente e inclusive necessário voltar a contatar com o/a ex para comprovar se é possível restaurar a relação de casal.

Como retomar a relação depois do contato zero

É normal ter alguns medos e se sentir vulnerável ao estabelecer contato de novo com seu ex após um tempo sem se comunicar. Neste contexto, é importante que se pergunte se tem a intenção de recuperar o/a seu/sua ex, mas sem assumir o risco de se comunicar com ele/a primeiro. Pode seguir adiante sem tentar esta oportunidade? Poderá seguir em frente sem voltar a ter uma conversa com ele/a?

Ao final, não importa tanto quem rompa o elo e tome a iniciativa de voltar a contatar o outro, mas a aprendizagem durante este período e a possibilidade de reconstruir a relação. No caso de optar por um contato zero indefinido, o melhor é tomar esta decisão com calma e tranquilidade, estando em paz diante da ideia de seguir em frente sem o/a seu/sua ex.

Se quiser continuar aprendendo sobre o tema, no vídeo abaixo você pode aprender Como fazer contato zero.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Referências
  1. Kansky, J., & Allen, J. P. (2018). Making sense and moving on: The potential for individual and interpersonal growth following emerging adult breakups. Emerging Adulthood, 6(3), 172-190.
  2. Sbarra, D. A., & Emery, R. E. (2005). The emotional sequelae of nonmarital relationship dissolution: Analysis of change and intraindividual variability over time. Personal Relationships, 12(2), 213-232.
Bibliografia
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  • Winch, G. (2018). How to fix a broken heart. Simon and Schuster.
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