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Conceito de personalidade

 
Por Equipe editorial. 8 setembro 2020
Conceito de personalidade

Transtorno de personalidade (TP): traços de personalidade permanentes inflexíveis e não adaptados, que causam incapacitação social significativa, perturbam a eficácia profissional ou promovem um mal-estar ou sofrimento subjetivo. A princípio, a definição e classificação de personalidade, se apresenta como "fruto" de um acordo, traz uma profunda revisão e classificação da bibliografia publicada e a práxis profissional, mesmo que, a nível empírico, se acaba aceitando como uma "solução de compromisso", uma certa nomenclatura que não corresponde com os resultados obtidos.

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Conceito de personalidade

O que é a personalidade? No conceito de personalidade existem duas alternativas:

  1. A personalidade se identifica como a parcela do funcionamento pessoal que é resistente à mudança, que se encontra consolidada e que possui uma generalização e coerência de respostas em diferentes tempos e contextos, excluindo o situacional, reativo-diferencial, diante de situações diferentes. Faz referência a formações psicológicas integradas, com níveis de organização e hierarquização. Representada por Eysenck.
  2. Personalidade como aquela que identifica o ser humano individual ao longo do ciclo vital, que deve se integrar a um modelo pessoal, desde a reatividade situacional, até o estilo de vida, motivações, crenças e concepções do mundo. Representada por Royce.

No que se refere aos transtornos de personalidade, o sistema conceitual classificatório se situa na primeira opção, mas não é um modelo dimensional, e sim categórico.

Reflexão histórica do conceito de personalidade e os transtornos de personalidade

Contribuições de 3 tradições teóricas:

1. A caracterologia médica: defende que há um substrato hereditário que predispõe à ocorrência de um ou outro tipo de problema, e que os eventos externos são produtores-disparadores de problemas graves dentro do campo da saúde mental:

  • Uma edição avançada da obra de Kraepelin, fazia referência à "personalidade autista" como antecedente da demência precoce.
  • Kretschmer, propôs um contínuo racional que ia desde a esquizofrenia até a psicose maníaco-depressiva, com intervalos intermediários de "personalidades" mais ou menos patológicas.
  • Jaspers, afirma que os transtornos de personalidade não chegam a ser entidades nosológicas como as psicoses, mas que podiam dar lugar a elas. Eram indicadores de certas alterações mentais.

2. A psicodinâmica: a tradição psicanalítica defendia a existência de uma teoria da personalidade e da psicopatologia, em que a perturbação da evolução pessoal seria a fonte explicativa, "responsável" pelas alterações.

3. A fenomenologia social: entende a personalidade como "resposta" diante das reações dos outros, como o conjunto de papéis que um ser humano desempenha ao longo de sua vida, e a perturbação é concebida como aqueles papéis que são prejudiciais aos outros. Neste caso, os transtornos de personalidade surgem como doenças ou erros no processo de socialização, dirigidos à produção de danos aos outros.

As 3 tradições concebem a definição do DSM-III, como uma tentativa de agrupar e/ou alcançar o maior consenso possível.

Definição de personalidade

Definição de personalidade como conjunto de traços que uma pessoa tem. Os traços de personalidade são pautas duradouras na maneira de perceber, pensar e se relacionar com o ambiente e com si mesma de cada pessoa, que se tornam patentes em uma ampla gama de contextos pessoais e sociais. Se mantém durante o DSM-III-R e nos manuscritos de trabalho do DSM-IV.

Tipos de personalidade

Sistemas de classificação da personalidade

São considerados 3 grandes sistemas de classificação para os transtornos de personalidade:

  • A CID-10 (OMS).
  • A classificação denominada Manual de estatística e diagnóstico: DSM-IIIR e DSM-IV (acabou de ser publicada).
  • A proposta de Millon que inclui um sistema multiaxial para os transtornos de personalidade, utilizada para a preparação do DM-III-R.

Tipos de transtornos de personalidade

Os transtornos de personalidade se dividem em 3 grandes conglomerados, que englobam 11 transtornos.

  1. Indivíduos raros e excêntricos: Transtorno da Personalidade Paranoica, Transtorno da Personalidade Esquizoide e Transtorno da Personalidade Esquizotípica.
  2. Personalidades erráticas, emocionais e teatrais: Transtorno da Personalidade Histriônica, Transtorno da Personalidade Antissocial, Transtorno da Personalidade Narcisista e Transtorno da Personalidade Limítrofe.
  3. Indivíduos temerosos com ansiedade marcante: Transtorno da Personalidade Dependente, Transtorno da Personalidade Obsessivo-compulsiva, Transtorno da Personalidade Passivo-Agressiva e Transtorno da Personalidade Esquiva.

Existe um quarto núcleo denominado misto e atípico para os indivíduos cujos traços não se acomodam bem a nenhum dos três. Estes transtornos são ateóricos no que se refere à etiologia e teoria dos mesmos.

Na versão do DSM-IV também se propôs a inclusão do transtorno depressivo da personalidade e do transtorno negativista da personalidade. O DSM-III-R propõe que se realizem diagnósticos politécnicos: o clínico pode estabelecer diagnósticos utilizando diferentes combinações do conjunto de sintomas, sempre que o número dos apresentados seja da metade + 1 (exceto na personalidade antissocial). No caso de não ser suficiente, o indivíduo não será diagnosticado no eixo II, mesmo que possa sê-lo no I. Este ponto é muito criticado sobretudo pelos partidários de sistemas de classificação dimensionais. O DSM não ordena estes transtornos segundo a gravidade da incapacitação social, disfunção ocupacional e mal-estar subjetivo. Preparação do DSM-IV:

  • Na revisão de 1991, foram incluídas outras 2 categorias: o transtorno depressivo da personalidade e o transtorno negativista da personalidade. Na revisão de 1993, ambos transtornos desaparecem e se incluem na categoria de "transtornos da personalidade não específicos".
  • Na versão ficariam 10 transtornos da personalidade + uma categoria de não específicos. Esta versão trata de conseguir uma maior coincidência com a CID-10. Diferenças: 1. Entre específicos e mistos: os específicos incluem transtornos graves de caráter constitutivo e das tendências comportamentais, que afetam diversos aspectos da personalidade e que, quase sempre, são acompanhados de alterações sociais e pessoais consideráveis.
  • Os mistos: quando características que não permitem a integração dentro de uma categoria completa estão presentes. 2. Entre específicos e transformações persistentes: Os específicos: tendem a se apresentar na infância e adolescência, persistindo durante a vida adulta. As transformações surgem durante a vida adulta como consequência de tragédias, traumas, situações estressantes e devem se manter como mudanças bem definidas e duradouras. Os 3 grupos configurados: Transtornos específicos: Paranoide, esquizoide, dissocial, instabilidade emocional da personalidade, histriônico, narcisista, ansioso, dependente, anancástico e "não específico". Transtornos mistos: mistos da personalidade e variações problemáticas da personalidade. Transformações persistentes da personalidade: subsequente a experiências traumáticas, a doenças psiquiátricas, outras transformações e transformações sem especificação.

Todos se referem a formas de comportamento duradouras e arraigadas, que se manifestam como modalidades estáveis de resposta a um amplo espectro de situações individuais e sociais. Somente a primeira categoria coincide com a consideração geral de transtornos da personalidade. Para o diagnóstico devem se apresentar ao menos 3 dos sintomas que especifica a CID-10 (a metade, na maioria dos casos). A CID-10 não informa uma gradação de gravidade dos transtornos.

Millon: A personalidade se compõe de categoria ou diretrizes aprendidas para lidar com o meio (teoria da aprendizagem biossocial). São formas completas e estáveis de se portar no ambiente, carregam comportamentos instrumentais que produzem reforços e evitam punições.

Assim, Millon organiza os transtornos de personalidade segundo 4 critérios variáveis: Gravidade: leve/suave, intermediárias, alta. Natureza do reforço: positivo e negativo. Fonte do reforço: si próprio e os outros. Comportamentos instrumentais para conseguir os reforços: estratégias de abordagem passiva e estratégias ativas.

A partir destes critérios, se obtêm 8 tipos fundamentais de personalidades anômalas de gravidade leve e suave (conflitos intrapsíquicos não adaptáveis que dificultam a adaptação social para encontrar a satisfação pessoal e encontrar reforços em si mesmo e nos outros) e 3 variantes de gravidade alta (déficit em habilidades sociais e sinais psicóticos periódicos e reversíveis)

  1. Gravidade leve-suave. Histriônica Dependente Antissocial Narcisista
  2. Gravidade intermediária. Passivo-agressiva Obsessivo-compulsiva Esquiva Esquizoide
  3. Gravidade alta. Esquizotípica (variante de esquiva e esquizoide) Limítrofe (variante de histriônica, dependente, passivo-agressiva e obsessivo-compulsiva)

Paranoide (variante antissocial e narcisista, e em alguns casos de passivo-agressiva e obsessivo-compulsiva) Características que as 11 alterações compartilham:

  • Grande inflexibilidade, limita as possibilidades de aprender novos comportamentos
  • Existência frequente de ações que fomentam círculos viciosos
  • Grande fragilidade emocional diante das situações de estresse.

Posteriormente, Millon baseará sua nova classificação em 6 pontos, onde o esquema sempre é o mesmo:

  • Comportamento aparente: como os outros percebem o comportamento do S a ser tratado
  • Comportamento interpessoal: como interage com os outros.
  • Estilo cognitivo: que processo de pensamento o sujeito realiza
  • Expressão afetiva: como demonstra as emoções.
  • Percepção de si mesmo
  • Mecanismos de defesa pessoal

Atualmente, a existência de 10-11 transtornos da personalidade é aceita nos sistemas de classificação categórica.

Questões etiológicas e epidemiológicas

Em uma análise genérica, a partir do ponto de vista médico-biológico, os transtornos de personalidade teriam um forte componente biológico que explicaria sua aparição. Mas, utilizando uma abordagem mais social, as interações interpessoais e os aprendizados seriam responsáveis por sua aparição. A interação continuada entre ambos seria, o que, ao longo da infância e da adolescência, configuraria um padrão de comportamento que conduziria ao estabelecimento (ao redor da terceira década) de um diagnóstico de personalidade.

Apenas Millon (e Everly) se atreve a dar dados concretos (a redação do DSMIII-R e do DSM-IV, se apresenta como ateórica em relação à etiologia). Millon propõe que existem determinantes biogênicos e psicogênicos, que covariam para formar a personalidade ao longo do tempo. O peso de cada um deles varia em função do tempo e das circunstâncias.

A estrutura biológica do cérebro poderia ser considerada como a primeira causa, mas logo em seguida começam as influências do ambiente. As bases genéticas devem ser procuradas em explicações poligênicas e não monogênicas, o que complica ainda mais o estudo das bases biológicas. Além disso, as características constitucionais, tem relação com a aprendizagem posterior. A aprendizagem também pode acabar prejudicada por aspectos ambientais, que viriam de 3 fontes principais:

  1. Eventos que criam ansiedade intensa, minando os sentimentos de segurança.
  2. Condições neutras a nível emocional ou modelos de comportamento que não acionam comportamentos defensivos ou protetores, tal como fazem os eventos emocionais perturbadores.
  3. Insuficiência de experiências que exigem o aprendizado de comportamentos adaptativos.

Em função destas considerações biológicas e de aprendizagem social, Millon estabelece a etiologia de cada um dos transtornos. No que se refere à MORBIDADE dos transtornos de personalidade. há grande escassez de dados. Em termos gerais e, através de uma revisão dos trabalhos epidemiológicos dos EUA, entre 1960 e 1986, Casey conclui que: a prevalência dos transtornos de personalidade vai de 2,1 a 18%, dependendo da população e critérios. Geralmente, estão mais associados aos jovens e ao gênero masculino. Na população adulta urbana, os tipos mais comuns são o explosivo e o anancástico. Quando o transtorno estava associado a outro do eixo I, 34% tinham um transtorno de personalidade.

Características dos traços de personalidade para que adquiram o caráter de transtornos da personalidade:

  • Que sejam inflexíveis e não adaptáveis.
  • Que causem incapacitação social significativa, disfunção ocupacional ou mal-estar subjetivo.
  • Dito de outra maneira, os critérios propostos são disjuntivos (mas não excludentes): sofrimento pessoal, problemas profissionais ou problemas sociais.
  • Proposta de uma tabela de equivalências entre transtornos da infância e adolescência, e transtornos da personalidade nos adultos: "As manifestações dos transtornos de personalidade são reconhecíveis geralmente na adolescência, ou até mesmo mais cedo, e permanecem ao longo da vida adulta".

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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