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Teoria sociocultural de Vygotsky

 
Por Bryan Longo. 26 agosto 2020
Teoria sociocultural de Vygotsky

Tentar entender a origem ou causa de nossos comportamentos através de ou por influência da cultura e da sociedade é mais fácil graças à teoria sociocultural de Vygotsky, que explica como todo o cognitivo está relacionado com o conhecimento, o qual é obtido pela experiência. Neste artigo de Psicologia-Online, explicaremos como é mediante o conhecimento obtido com a experiência que podemos adaptar e compreender a realidade.

Teoria da linguagem de Vygotsky

Em seu livro Pensamento e Linguagem (1993), Lev Vygotsky propôs a análise das relações entre estas duas funções psicológicas, a partir de uma perspectiva teórica nunca antes abordada. Propõe que a consciência deve ser entendida como um sistema dinâmico de funções psicológicas, onde pensamento e linguagem são apenas dois; estas funções constituem as diversas formas da atividade da consciência. A linguagem para Vygotsky é um instrumento fundamental para o desenvolvimento do pensamento e sua evolução. É por esta razão que Vygotsky propõe que o pensamento e a linguagem são a base para compreender a natureza da consciência humana.

Se considerarmos a linguagem como um instrumento que tem origem social, nos referimos ao fato de que toda atividade ou processo mental é feito com o uso de instrumentos psicológicos, ou seja, símbolos que facilitam ou possibilitam o pensar. Para este autor, os instrumentos são: a língua, obras de arte, escritos e desenhos. Razão pela qual a utilização de organizadores visuais dentro da aula ajuda a desenvolver o pensamento e a linguagem; assim como a organização de ideias e sua estruturação.

Caicedo (2012), expõe que o cérebro foi dotado, através da evolução, de áreas especializadas no processamento de certos estímulos de acordo com regras universais da linguagem. A área de Broca está envolvida na produção da linguagem e a área de Wernicke está associada com processos semânticos da linguagem. Aqui você pode ver as funções das áreas de Broca e de Wernicke. Caicedo diz que tanto uma como outra são estruturas com capacidade de processamento não apenas de estímulos sonoros, mas também daqueles que contém informação visual e espacial, que podem chegar a ser processados linguisticamente.

Medina (2007) argumenta que toda atividade mental é feita com a utilização de instrumentos psicológicos, isto é, símbolos que tornam possível pensar e realizar atividades. Assim como também expõe Reuven Feuerstein (2008), a mente cognitiva organiza o mundo, que vai se formando e estruturando desde uma idade precoce.

Para Vygotsky, a origem dos símbolos é sociocultural, já que estes são a canalização para o pensamento, para ele, os símbolos recriam e reorganizam a composição mental. Vygotsky (2001) diz que a compreensão da linguagem é uma cadeia de associações que surgem na mente, sob influência de imagens conhecidas das palavras. Portanto, entre a linguagem e o pensamento, o «significado» desempenha um papel importante.

Para Vygotsky (2001), o significado das palavras não é estático, e sim evolui com as situações. É por esta razão que este autor propõe que o significado da palavra funciona como unidade de análise da consciência. O significado é a resposta que se produz. A evolução de nosso pensamento está precedida pela linguagem, ou seja, por estes instrumentos linguísticos do pensamento e a experiência social e cultural do sujeito.

Portanto esta unidade de análise está conotada com as áreas inter e intra psicológicas; considerando o que disse Reuven Feuerstein sobre a metacognição: o componente metacognitivo inclui a consciência dos fatores que afetam o pensamento e o controle que se têm sobre estes fatores.

Medina (2007) expõe que o significado de um símbolo, ou seja, a compreensão de sua conotação, é uma tarefa que recai sobre o próprio intérprete. O pensamento se reestrutura e se modifica ao se transformar em linguagem.

Desde pequenos nos ensinaram a falar com os outros: como cumprimentar, perguntar sobre a vida dos outros... mas nunca nos ensinaram a falar com nós mesmos, mesmo esta sendo uma base muito importante da metacognição, o ser consciente de nós mesmos e dos outros, nossa consciência social. Como dito por Marco Ledesma (2014), o pensamento e a linguagem continuamente alteram a vida cotidiana, são reviravoltas que apostam na comunicação, com a intenção de expressar o que uma pessoa sente por dentro, se guiando pelas experiências e expectativas. Pela perspectiva da neurolinguística, é fundamental o inconsciente dos seres humanos nas relações subjetivas e intersubjetivas. Como percebeu Lacan, o outro influencia no desenvolvimento e formulação da língua na vida cotidiana.

Teoria sociocultural de Vigotsky: resumo

Lev Vygotsky, psicólogo soviético considerado o pai do construtivismo social, ou seja, a teoria de que a mente e suas funções são originadas na cultura e na interação com os outros, e de que os aprendizados ocorrem em um contexto histórico cultural determinado. Estas ideias foram retomadas pelo cognitivismo e foram as bases da revolução cognitiva.

Para Vygotsky existem diferentes funções psíquicas:

  • Uma delas são as inferiores, isto é, aquelas que compartilhamos com o reino animal, como a memória, a atenção e a percepção.
  • Por outro lado, temos as funções psíquicas superiores, que são as que nos caracterizam como seres humanos, e são as que somente nós podemos alcançar através da interação com outros seres humanos, por exemplo, a atenção seletiva, raciocínio abstrato, metacognição, insights, e o pensamento matemático. Tudo isso mediado pela linguagem, a qual é a principal ferramenta cultural humana, que nos possibilita o pensamento e a comunicação.

Vygotsky chega a diferenciar dois níveis de desenvolvimento:

  1. O nível de desenvolvimento atual da criança (tudo o que uma pessoa pode fazer sem problemas nem ajuda)
  2. O nível de desenvolvimento potencial (tudo o que a criança poderá chegar a alcançar ou fazer). A distância entre o desenvolvimento atual e o desenvolvimento potencial é a zona de desenvolvimento próximo, é nesta zona que a criança recebe ajuda e colaboração do adulto, de um especialista ou de colega de classe mais avançado que ela para o aprendizado.

Na teoria de Vygotsky, se fala do potencial humano ou capacidade cognitiva do ser humano, onde é exposto que cada geração não deve iniciar novamente do zero, não é necessário reinventar a roda ou o fogo, cada geração pode partir dos conhecimentos desenvolvidos pela geração anterior. Os adultos e especialistas podem exercer esta troca de consciência que obtiveram através do desenvolvimento da aprendizagem. Desta forma aumentamos nosso potencial.

Teoria sociocultural de Vygotsky - Teoria sociocultural de Vigotsky: resumo

Vigotsky e o construtivismo

O que caracteriza o pensamento de Vygotsky, segundo Medina (2007), são os três pontos seguintes:

  1. A semiótica.
  2. A gêneses social da consciência.
  3. O papel do instrumento simbólico como regulador da atividade cognitiva.

Mediante este pensamento, ocorre o desenvolvimento do homem e sua explicação comportamental com sua prática, já que os processos construtivistas são próprios das funções mentais, onde se dá a assimilação dos conhecimentos culturais.

Teoria sociocultural do desenvolvimento cognitivo de Vygotsky

Vygotsky tenta responder à pergunta: como a criança aprende?

Aprendizagem segundo Vygotsky

Para Vygotsky, aprender significa adquirir funções cognitivas superiores. Como a criança adquire estas funções? Interagindo com o entorno que a rodeia, mas não apenas isto, já que ela também interage com o entorno que a rodeia através de uma série de ferramentas.

  • Por exemplo: uma lupa, utilizada ao se aproximar de uma árvore e observá-la.

Desta forma está interagindo com seu entorno, mas também está utilizando uma ferramenta que facilita a interação com o entorno. É por este motivo que Vygotsky também denomina sua aprendizagem como aprendizagem mediada, porque as ferramentas que mediam a criança e o entorno geralmente são de tipo social ou cultural: pessoas os instrumentos que os adultos utilizam.

Aprendizagem sociocultural

Para Vygotsky, a cultura influencia no desenvolvimento cognitivo das pessoas. Segundo Savater (1997), a comunidade na qual a criança nasce impõe o que ela será obrigada a aprender e também as peculiaridades desta aprendizagem. Savater continua explicando através do artigo The Super Organic de Alfred L. Kroeber «A distinção que existe entre o animal e o homem não é a física nem a mental, que não é mais do que relativa, mas sim a que há entre o orgânico e o social». Bach, se nascido no Congo no lugar da Saxônia, não teria produzido nem o menor fragmento de um coral ou uma sonata, mesmo sendo provável que teria superado seus compatriotas em alguma outra forma de música.

Como estas estruturas de pensamento e de ação se desenvolvem? Para Vygotsky, através das atividades sociais; ele coloca ênfase no social para o desenvolvimento.

Vygotsky também fala de habilidades cognitivas básicas, que são as desenvolvidas quando interagimos com um grupo, com a sociedade ou nossa cultura. As habilidades e estratégias cognitivas que uma pessoa irá desenvolver são diferentes, é por isto que não se pode extrapolar a cultura e as habilidades da Índia, China, Estados Unidos ou qualquer outro país.

Estas habilidades cognitivas básicas são a atenção, a memória, a linguagem e a percepção, e vão se transformando, através da influência da cultura e da sociedade, em funções superiores de pensamento para poder resolver problemas mais complexos.

Vygotsky nos fala da zona de desenvolvimento próximo, onde fica o que a criança pode e não pode fazer por si mesma. Por isto, o autor diz que os pais devem orientar e direcionar sua aprendizagem, e isto se conhece como andaimes (é o apoio do adulto para guiar a aprendizagem da criança, até que esta alcance autonomia na atividade concreta, ou possa resolver o problema sozinha). É o que faz um professor com alguém que está aprendendo a tocar guitarra, está criando um andaime para que a criança desenvolva autonomia.

Quanto mais interações realizar, mais estruturas e formas de comportamento serão desenvolvidas, mas não é possível extrapolar a todas as culturas (uma criança da África terá estratégias cognitivas e de pensamento diferentes de uma americana).

Vygotsky fez um trabalho muito importante, já que coloca ênfase no fato de que a aprendizagem e desenvolvimento são obtidos através da interação social, e que não somente se torna inteligente por se ter um coeficiente intelectual alto, mas que as pessoas que possuem grandes capacidades possuem diversas inteligências e têm um desenvolvimento cognitivo superior.

Nos disse que esta forma de pensar e agir são ferramentas para que a pessoa possa resolver diferentes tipos de problemas. Uma criança que dispõe de menos educação em um ambiente menos rico de estímulos, que ajudem seu crescimento pessoal e educativo, terá menos ferramentas que uma criança que possui grande quantidade de educação, portanto esta criança com menos ferramentas pode resolver menos problemas que aquela que possui um entorno melhor, que enriquece seu desenvolvimento cognitivo.

Teoria sociocultural de Vygotsky: exemplo

Um menino que caminha, se aproxima de uma árvore e observa que em um dos galhos há uma fruta que ele deseja pegar, mas não possui capacidade suficiente para alcançar a fruta (como escalar a árvore ou qualquer outra coisa que precise para subir). O chão onde o menino pode se desenvolver sem ajuda seria chamado de nível de desenvolvimento real. Posteriormente, chega um adulto que ajuda o menino a subir pelo tronco para que ele alcance a fruta (ele não sobe na árvore, apenas ajuda o menino a fazê-lo). Com a ajuda do adulto o menino chegará até um ponto do tronco da árvore, que seria o nível de desenvolvimento potencial, ou seja, o ponto até onde o menino pode chegar com ajuda e que depois dele, não conseguiria realizar nenhuma ação mesmo contando com a ajuda dos adultos. O adulto seria o andaime, que constituiria a zona de desenvolvimento próximo.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

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Referências
  1. Lev Vygotsky. (1993). Pensamiento y lenguaje. Editorial Paidos. España.
  2. Caicedo, H. (2012). Neuroaprendizaje. Ediciones de la U. Bogotá.
  3. Medina, A. (2007). Pensamiento y Lenguaje. Enfoques constructivistas. Editorial Mc Graw Hill Interamericana. México DF.
  4. Reuven Feuerstein. (2008). Teoría de la modificabilidad estructural cognitiva. UNMSM. Perú.
  5. Oscar Wilde. (1905). De profundis. Editorial Siruela. Madrid.
  6. Vygotsky. (2001). Psicología Pedagógica. AIQUE. Buenos Aires.
  7. Marco Ledesma A. (2014). Analísis de la teoría de: Vygotsky para la reconstrucción de la inteligencia social. EDUNICA. Ecuador.
  8. Fernano Savater. (1997). El valor de educar. Ariel. España.

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