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Carência afetiva: o que é, consequências e como curá-la

 
Por Sara Sanchis, Psicóloga especializada em Crescimento Pessoal. 23 janeiro 2021
Carência afetiva: o que é, consequências e como curá-la

A carência afetiva se encontra na base da grande maioria das manifestações de problemas emocionais, psíquicos e psicossomáticos das pessoas durante suas vidas. O ser humano é um ser social que precisa viver de forma fraterna com o restante das pessoas, amar e ser amado. Os casos de carência afetiva são resultado de uma privação afetiva das pessoas durante seus primeiros anos de vida, praticada pode seus cuidadores de uma maneira inconsciente na maioria dos casos.

Neste artigo de Psicologia-Online, vamos expor com detalhes a importância deste tema, as diferentes manifestações que apresenta em diferentes momentos de evolução e os possíveis tratamentos. A seguir veremos o que é a carência afetiva, suas consequências e como curá-la.

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O que são as carências afetivas segundo a psicologia

As carências afetivas são as consequências devastadoras de uma privação afetiva de uma criança durante sua primeira infância, isto é, uma falta de afeto ou de carinho. Este período é fundamental no ser humano para estabelecer as bases (de segurança ou insegurança) sobra as quais desenvolverá e construirá, posteriormente, seu projeto de vida.

O desenvolvimento ótimo e saudável das pessoas requer um cuidado e uma atenção afetivo-emocional positiva durante a primeira infância. Nos casos em que isto não ocorre como deveria (por incapacidade parental, por doença grave, por separação, etc.), é possível que se instaure no interior da pessoa a sensação de carência afetiva ou falta de carinho, experiência que a condicionará muito negativamente em quase todos os âmbitos de sua vida, se a situação não for revertida a tempo. A mãe (ou figura materna substitua) e a família são as principais figuras responsáveis pelo cuidado afetivo das crianças durante sua primeira infância. Em grande medida, encontra-se em suas mãos o estabelecimento de bases emocionais seguras, instáveis ou insuficientes nas crianças.

Tipos de carência afetiva

A carência afetiva surge durante a primeira infância, como já mencionamos, mas suas manifestações podem se dar ao longo de toda a vida. Quanto mais cedo se manifestar e ser percebida e tratada, melhor será o resultado do tratamento.

Carência afetiva em crianças

Muitas vezes a carência afetiva já se manifesta nos primeiros anos, de três formas possíveis:

  • Como uma resposta de demanda afetiva contínua: são crianças dependentes que buscam continuamente estar acompanhadas e cuja autoestima depende da avaliação dos outros; precisam, em muitos casos, ser o centro da atenção para se sentirem valorizadas; se frustram e se irritam quando não são atendidas como acreditam merecer e precisar; etc.
  • Como uma resposta de agressão, oposição e rejeição: exteriorizam sua dor interna sobre os outros (a mãe ou outras pessoas) e sobre o entorno através de um comportamento destrutivo: comportamento antissocial, desafiador, insubmisso, agressivo, autoritário, etc.
  • Com uma resposta de indiferença e falta de interesse: nestes casos, a criança se isola e se esconde dentro de si mesma. De certa forma, se desconecta do entorno para deixar de sofrer. Nestes casos, as crianças geralmente são passivas ou inativas; com grande desenvolvimento da imaginação, muito observadoras e analíticas; pouco comunicativas ou expressivas; com grandes dificuldades para as interações sociais; etc.

Carência afetiva em adolescentes

Se a pessoa com carência afetiva passou pela infância de uma maneira mais ou menos "normal", é possível que durante a adolescência todo este mal-estar interno estoure. Os comportamentos mais frequentes entre os adolescentes que passaram por estas experiências são:

  • Comportamento sexual precoce, inconsciente e de risco, com gravidez e possíveis abortos em meninas, como consequência deste comportamento sexual imaturo.
  • Comportamento antissocial, agressivo, dominante e, de novo, de risco, existindo uma alta probabilidade de praticar delinquências, como meio de escape emocional.
  • Comportamento de medo e submissão, com o consequente isolamento social.
  • Vícios (álcool, drogas, esportes perigosos, etc.) como meio de descarga fisiológica e emocional.
  • Comportamentos de maltrato contra os próprios pais, contra o/a namorado/a, contra desconhecidos, etc.

Carência afetiva em adultos

A carência afetiva infantil, se não detectada e tratada a tempo, se manifesta na idade adulta, limitando a pessoa em muitos aspectos de sua vida. Desta forma, e como falamos até agora, o adulto com carências afetivas se comportará com um destes três estilos comportamentais predominantes (ou com a combinação de vários):

  1. Estilo agressivo, pouco empático, autoritário e antissocial;
  2. Estilo dependente, controlador, ciumento, controlador, etc;
  3. Estilo medroso, submisso, com contato social escasso, muito imaginativo, com características e interesses peculiares, etc.

Carência afetiva paterna ou materna

Toda carência afetiva provém de um cuidado emocional insuficiente ou ineficaz durante a primeira infância. A gravidade das consequências e a dificuldade para superar esta carência dependerá de vários fatores:

  • O momento de início da experiência;
  • O tempo de duração;
  • A intensidade da negligência.

Quanto mais cedo se inicie a experiência de não atenção/separação, quanto mais dure e quanto mais intensa for, mais negativas serão as consequências e mais complicada de ser resolvida. No entanto, isto nunca deve ser motivo para deixar de intervir.

Carência afetiva no relacionamento

A manifestação da carência afetiva no relacionamento pode ser resultado de uma carência afetiva em um dos membros do casal, ou em ambos.

  • Em muitos casos, pessoas com carências afetivas estabelecem relacionamentos, mas são incapazes de mostrar seu afeto pelas limitações pessoais que vivenciaram em suas experiências na infância.
  • Em outros casos, a carência afetiva ou falta de carinho se manifesta em uma relação obsessiva, de dependência, de controle e de ciúmes em relação ao companheiro/a, precisamente por causa de sua própria privação afetiva na infância.
  • Em um terceiro caso, a pessoa com privação emocional irá tratar seu/sua companheiro/a de forma agressiva, desrespeitosa e pouco afetiva.

Não é incomum ver como a combinação destes perfis de pessoas constituem casais:

  • O perfil agressivo com o dependente: nestes casos existem altas probabilidades de que ocorram situações de maltrato.
  • O perfil passivo com o dependente: nestes casos, a pessoa dependente acaba frustrada com a ausência de seu/sua companheiro/a.

Consequências da carência afetiva

A falta de afeto familiar tem consequências? Sim, as pessoas que são vítimas da carência afetiva desenvolvem um perfil imaturo que cede espaço a desvios de comportamento e dificuldade de aprendizagem. De forma geral, podemos nomear como consequências da carência afetiva ou falta de carinho, as seguintes:

  • Transtornos emocionais: irritabilidade ou agressividade, instabilidade emocional, baixa autoestima, ansiedade, depressão, pensamentos suicidas, distorção cognitiva da realidade, etc.
  • Transtornos comportamentais: comportamento antissocial, retraimento, falta de assertividade, ressentimento, desobediência, falta de cooperação, insubmissão ou submissão, dependência, comportamento instável, etc.
  • Transtornos psicossomáticos: deterioramento ou imaturidade no desenvolvimento e crescimento, regressões; propensão a quedas e acidentes; alteração do esquema corporal; etc.
  • Transtornos cognitivos: déficit de atenção, hiperatividade, falta de concentração, baixo rendimento escolar, dificuldade para processar a informação, etc.

Tratamento para a síndrome de carência afetiva em adultos

Quando uma pessoa com carência afetiva chega a sua vida adulta sem ter recebido nenhum tipo de ajuda, as consequências sobre sua pessoa podem ter gerado grandes danos. No entanto, sempre é possível reverter a situação e para isso será necessário que o tratamento permita, entre outras coisas:

  • Buscar a origem de sua carência afetiva (normalmente, localizada no ambiente familiar) e tomar consciência da dor que isto provocou. Isto requer um acompanhamento afetivo e respeitoso por parte do/da terapeuta, o que permitirá a pessoa exteriorizar a dor vivida e controlá-la, como não havia sido no momento em que ocorreu.
  • Após este primeiro passo, é necessário ir desconstruindo toda sua personalidade para comprovar de que forma esta carência afetiva e a dor que ela gerou, modelaram todas suas crenças sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo, suas emoções e, consequentemente, seus comportamentos.
  • Esta tomada de consciência junto com a afirmação do terapeuta de que sua pessoa real tem um grande potencial que foi limitado pelo personagem que foi aceito e interiorizado sobre si mesmo, dará a motivação necessária para empreender as mudanças necessárias.
  • Iniciar um trabalho de reestruturação cognitiva, abandonando todos os pensamentos negativos e absurdos e despertando seu verdadeiro potencial, desenvolvendo o hábito de escutar a si mesmo, a sua própria intuição.
  • Reafirmar-se no ser que está nascendo e que é você de verdade.
  • Durante todo o processo, podemos utilizar também o trabalho corporal de respirações e relaxamentos, etc. já que muito do psicológico e emocional fica ancorado no corpo. Trabalhar isto é uma ferramenta básica para abrir parte dos bloqueios emocionais e não permitir que voltem a se instalar.

Para realizar todo este trabalho o paciente precisa ter paciência, constância e coragem. Não é um processo simples, nem rápido, mas as soluções definitivas requerem um trabalho completo e elaborado.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

Se pretende ler mais artigos parecidos a Carência afetiva: o que é, consequências e como curá-la, recomendamos que entre na nossa categoria de Emoções.

Bibliografia
  • Bielsa, A. Carencia afectiva. Centre Londres 94. Equip d'atenció per al desenvolupament i millora de la familia.
  • González, E. Educar en la afectividad. Facultad de Educación. Universidad Complutense de Madrid.

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