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Terapia de aceitação e compromisso: técnicas e exercícios

 
Por Anna Badia Llobet, Psicóloga e redatora. 29 julho 2021
Terapia de aceitação e compromisso: técnicas e exercícios

Os humanos têm ideias, lembranças, sentimentos e reagem diante deles. Damos um valor, um significado e uma conexão. Segundo a Dra. Carmen Luciano, pesquisadora e autora, a terapia de aceitação e compromisso permite entender o comportamento do ser humano e tem por objetivo que as pessoas aprendam a interagir com elas mesmas e construam a vida que querem viver, tornando mais presentes aquelas coisas importantes para elas mesmas.

A terapia de aceitação e compromisso consegue aumentar a resiliência e o significado da vida. Neste artigo de Psicologia-Online, conheceremos com profundidade a terapia de aceitação e compromisso, seus antecedentes, princípios, componentes, técnicas e exercícios.

O que é a terapia de aceitação e compromisso

A terapia de aceitação e compromisso (ACT) é um conjunto de técnicas e processos de intervenção psicológica cujos objetivos principais são aceitar as emoções, os pensamentos e os fatos vividos e se comprometer com os próprios valores.

O que é a ACT? A terapia de aceitação e compromisso é a mais completa das terapias de terceira geração. É delimitada por uma posição filosófica funcional e tem suas bases em uma nova teoria da linguagem e da cognição. A ACT defende uma nova visão da psicopatologia, na qual muitos distúrbios são entendidos como uma consequência derivada do desejo inconsciente de não sentir dor.

A terapia de aceitação e compromisso é um tratamento orientado aos valores de cada pessoa, defende o mal-estar como algo normal e pretende evidenciar o comportamento paradoxal: quanto mais se tenta evitar, maior sofrimento se obtém.

Afirma que o que produz sofrimento é a resistência ao mal-estar e que o objetivo deve ser tolerar o mal-estar, para assim gerar flexibilidade na regulação do comportamento e encaminhar a vida da pessoa em direção às metas que ela considera valiosas.

Antecedentes da terapia de aceitação e compromisso

A terapia de aceitação e compromisso está incluída em um tipo de terapias chamadas terapias de terceira geração. Segundo Steven C. Hayes, encontramos três gerações de terapias com evidência científica:

  • Primeira geração: a terapia de comportamento clássica. Foram terapias úteis, mas se revelou a necessidade de atender a parte cognitiva.
  • Segunda geração: a terapia cognitivo-comportamental. Estas são dirigidas a mudanças de pensamentos e emoções como para a mudança de atitudes. Foram amplamente estudadas e aplicadas e sua eficácia está comprovada.
  • Terceira geração: a terapia dialética, a psicoterapia analítica funcional e a terapia de aceitação e compromisso, entre outras. O que são terapias contextuais ou de terceira geração? As terapias de terceira geração são orientadas à responsabilidade de escolha da pessoa e não seus sintomas. Concentram-se em alterar o contexto que faz com que os sintomas sejam problemáticos. Por isso, também são chamadas terapias contextuais.

Princípios da terapia de aceitação e compromisso

A terapia de aceitação e compromisso postula que as terapias anteriores propõem técnicas para solucionar sintomas que em certos casos são naturais, pois são humanos.

A terapia de aceitação e compromisso se baseia na ideia de que quanto mais esforço é dedicado a solucionar ou afastar algo que incomoda, mais presente isto se torna.

Como funciona, então, a terapia de aceitação e compromisso? Os seguintes princípios explicam a terapia de aceitação e compromisso:

  • A condição humana: tanto a experiência do prazer como a do sofrimento fazem parte do ser humano. É tão inevitável ter prazer, quanto ter sensações desagradáveis.
  • O que guia o comportamento: o comportamento pode ser guiado pelo mais básico, a busca do prazer, ou por ideais ou valores como a honestidade e o respeito.
  • A não evitação experimental: contra a tendência de fugir da dor e eliminar o mal-estar com todos os recursos possíveis, nasce a não evitação experimental, argumentando que quando se tenta impedir ou se esquivar dos pensamentos e emoções desagradáveis, o que se consegue é o aumento deles. A evitação experimental é padrão de comportamento inflexível e limitante, e é um dos componentes dos transtornos afetivos, de ansiedade, de dependências, do comportamento alimentar, do controle de impulsos, psicóticos e o enfrentamento de doenças.
  • Fusão cognitiva: consiste no erro de tomar como certo aquilo que se pensa sem que realmente seja.

O objetivo da terapia de aceitação e compromisso é que a vida tenha um maior significado. Já que os problemas continuarão ali e os pensamentos negativos e emoções desagradáveis permanecerão, no entanto, as ações estarão alinhadas com os valores e possuirão mais sentido.

A terapia de aceitação e compromisso pretende ajudar as pessoas a viver uma vida plena, não livre de experiências desagradáveis, mas mediante a dotação de significado.

Terapia de aceitação e compromisso: técnicas e exercícios - Princípios da terapia de aceitação e compromisso

Componentes da terapia de aceitação e compromisso

A terapia de aceitação e compromisso é formada pelos seguintes componentes:

  1. Consciência plena: estar presente aqui e agora, prestando atenção no momento atual.
  2. Desfusão cognitiva: a desfusão cognitiva ou desfusão do pensamento consiste na separação entre os acontecimentos internos e a identidade. A pessoa não é seus pensamentos, nem suas emoções, estes são produtos da mente. Trata-se de observar as próprias sensações, os pensamentos e emoções como eventos passageiros na mente.
  3. Aceitação: a aceitação é o abandono da atitude de luta. Deixar de lutar contra as sensações desagradáveis, permitir que ocorram e observá-las com curiosidade.
  4. Eu contextual: não se identificar com os pensamentos, já que estes são acontecimentos que ocorrem na mente e o Eu pode percebê-los e observá-los. Pode-se contemplar o que ocorre na mente e quem observa é o verdadeiro Eu.
  5. Valores: os valores são aquilo que é realmente importante para cada pessoa. É importante identificá-los e tê-los presentes para que guiem o comportamento.
  6. Ação: levar adiante ações alinhadas com os valores. Os atos devem estar alinhados com os objetivos baseados nos valores.

Técnicas e exercícios da terapia de aceitação e compromisso

As técnicas empregadas na terapia de aceitação e compromisso são as seguintes:

Meditação

A meditação é a consciência plena. Consiste em ficar presente e ser consciente das sensações, impulsos, pensamentos e emoções. Serve para se dar conta de que se tem um pensamento ou uma emoção, sabendo que se é muito mais que isso. Observar com curiosidade o que ocorre no interior, soltando os medos e os preconceitos. No seguinte artigo, você encontrará várias técnicas de meditação para iniciantes.

Aumento da regulação

A partir de uma perspectiva comportamental, seria necessário reforçar um comportamento para que esta tenha maior probabilidade de voltar a se produzir. Por exemplo, dar um prêmio após ser aprovado em um exame para que uma pessoa estude. O que propõe a ACT através do aumento da regulação é que um comportamento adquira um significado com uma função reforçadora. Por exemplo, se se relaciona com o título (o que significará optar pela posição profissional desejada) como estudar hoje para o exame de amanhã, o comportamento se reforça devido ao significado que é outorgado.

Os exercícios, neste caso, consistem em refletir, detectar associações estabelecidas socialmente e ressignificar alguns conceitos.

Não evitação das emoções desagradáveis

Se as emoções como o medo ou a tristeza se identificam como "maus", a tendência é querer evitá-los e escapar deles, algo que aumenta o mal-estar. Podendo até mesmo chegar ao extremo da evitação total, que seria o suicídio.

No entanto, desde a não evitação experimental, se reduz o sofrimento. Para isso, uma das técnicas de aceitação e compromisso consiste em contextualizar a dor, as emoções e as sensações desagradáveis como algo normal e humano do que não é necessário escapar, e, sim, algo do que se pode aprender.

Um dos exercícios da terapia de aceitação e compromisso consiste na predisposição de perceber e sentir emoções, sensações, pensamentos, etc.

Aceitação e normalização do mal-estar

Hoje em dia, da forma como a sociedade funciona, não há lugar para o mal-estar e para a dor, associando o bem-estar com o prazer imediato e vinculando a dor como algo anormal.

Como trabalhar a aceitação na terapia? A aceitação consiste em deixar de lutar contra as sensações desagradáveis, permitir que ocorram e observá-las com curiosidade. A tolerância ao mal-estar se trabalha estando disposto a experimentar sem resistir os pensamentos e emoções.

Não controle do incontrolável

Os pensamentos e emoções que atravessam a mente não podem ser evitados nem controlados. Tentar controlar os eventos internos como lembranças ou sensações não é possível, além disso, reduz a capacidade de viver plenamente. É possível chegar à evitação experimental que supõe a necessidade de controlar ou evitar os pensamentos, lembranças, sensações e as circunstâncias que os geram.

A técnica que propõe a ACT é evitar controlar o que não se pode controlar.

Observação do pensamento

Trata-se de tomar consciência dos pensamentos e diferenciações deles. Distanciar-nos de nossos eventos cognitivos entendendo-os como produtos da mente. É possível praticar, por exemplo, a observação do pensamento para conseguir a desfusão cognitiva. Trata-se de entender que a pessoa não é o pensamento, e sim a pessoa que está por trás e pode observar os pensamentos, sensações e qualquer conteúdo cognitivo.

Diante da observação do pensamento, pode-se escolher como agir a respeito.

Clarificação de valores

Trata-se de encontrar o que é verdadeiramente importante para uma pessoa, o objetivo é clarificar o que a pessoa quer para sua vida e o porquê de sua escolha. Os exercícios para conseguir isto consistem em refletir sobre perguntas como:

  • O que estaria fazendo todos os dias se pudesse se dedicar a outra coisa que não fosse se livrar do sofrimento?
  • Se pudesse passar uma tarde com quem quisesse, com quem seria? E se fosse sua última tarde, seria a mesma pessoa?
  • O que você daria de presente para a pessoa que mais ama em seu aniversário se tivesse dinheiro infinito? E se fosse o último aniversário dela, daria a mesma coisa?

Compromisso

O compromisso se traduz em agir com responsabilidade para a direção escolhida. Definir objetivos em função de valores, colocar a pessoa a cargo de suas ações, criar uma estratégia para dirigir a ação através dos valores e agir conforme os valores.

Uso das metáforas

As metáforas, comparações e exemplos, são muito úteis para ilustrar os paradoxos do funcionamento psicológico e, por isso, são estratégias muito utilizadas na terapia de aceitação e compromisso. A seguir veremos várias metáforas da terapia de aceitação e compromisso.

Terapia de aceitação e compromisso: técnicas e exercícios - Técnicas e exercícios da terapia de aceitação e compromisso

Metáforas da terapia de aceitação e compromisso

Algumas das metáforas utilizadas na terapia de aceitação e compromisso são as seguintes:

Metáfora do xadrez

As peças pretas podem ser pensamentos negativos, ao passo que as brancas podem ser pensamentos positivos. No entanto, o eu não são as fichas, mas sim o tabuleiro. Esta metáfora na terapia de aceitação e compromisso permite entender a mente como um espaço no qual ocorrem coisas que podemos perceber e observar sem ser essas coisas.

Metáfora do muro

Quando não há aceitação, a pessoa fica se lamentando diante de um muro enorme que não pode ser contornado. Porém, quando se aceita que este muro existe, começa a procurar ferramentas e formas de passar para o outro lado do muro ou até mesmo encontrar um novo caminho.

Metáfora do jardim

Imagine que para um jardineiro o mais importante são as plantas. Ele as planta no melhor lugar e cuida delas. Um dia começa a ver que ervas daninhas estão nascendo e as arranca. Quando começa a sair uma erva daninha, ele a arranca correndo. Mas não consegue eliminá-las por completo, e assim as ervas daninhas continuam surgindo.

O que você acha que acontecerá se o jardineiro dedicar todo seu esforço a eliminar as ervas daninhas? Não terá tempo para cuidar das plantas, regá-las, podá-las, adubá-las... Você acha que se o jardineiro estiver sempre ocupado arrancando ervas daninhas poderá desfrutar de seu jardim? O que as plantas diriam se pudessem falar?

Metáfora da pedra

"O distraído tropeçou nela. O violento a utilizou como arma. O empreendedor construiu com ela. O camponês utilizou como banco. Para as crianças foi um brinquedo. Davi matou Golias e Michelangelo esculpiu a mais bela escultura. Em todos os casos, a diferença não esteve na pedra, mas sim no homem."

Metáfora do homem no buraco com uma pá

"Um homem ia pelo campo, com uma venda nos olhos e uma pequena bolsa de ferramentas. Haviam lhe dito que sua tarefa consistia em percorrer por esse campo com os olhos vendados. O homem não sabia que no campo havia buracos muito grandes e profundos, ignorava completamente. Assim que começou a correr pelo campo, caiu em um destes buracos. Começou a apalpar as paredes do buraco e se deu conta que não podia sair e de que não havia outros caminhos para escapar. Procurou na bolsa de ferramentas que haviam lhe dado, para ver se havia algo que pudesse usar para escapar e encontrou uma pá. Era a única coisa que tinha. Assim começou sua diligência, mas muito rapidamente percebeu que não saía do buraco. Tentou cavar mais e mais e mais rápido, mas continuava no buraco. Tentou com grandes e pequenos golpes, jogando terra para perto e para longe... mas continuava no buraco. Todo esse esforço e todo esse trabalho, e a única coisa que conseguia era que o buraco ficasse cada vez mais profundo. Então se deu conta de que cavar não era a solução, não era a forma de sair do buraco, pelo contrário, cavar deixava os buracos maiores. Então começou a pensar que talvez todo seu plano estivesse equivocado e que não havia solução, já que cavando não podia conseguir uma escapatória, apenas se afundar mais."

O/A terapeuta na terapia de aceitação e compromisso

A terapia de aceitação e compromisso não é estruturada em sessões, nem segue um protocolo fechado. O/A terapeuta oferece explicações e exercícios orientados à reflexão do/a paciente sobre si mesmo/a e seu problema, realça o protagonismo do/a paciente em sua vida e a capacidade que tem para enfrentar o mal-estar e reescrever sua vida. Através de exemplos e de exercícios, o/a terapeuta mostra ao paciente que controlar e evitar são estratégias que não funcionam e ensina a normalizar e tolerar o mal-estar.

Livros de aceitação e compromisso

Se você quer mais informação, pode consultar os seguintes livros:

  • Terapia de aceptación y compromisso (ACT): Un tratamiento conductual orientado a los valores
    de Kelly G. Wilson e M. Carmen Luciano Soriano, em Espanhol.
  • Get out of your mind and into your life. The new acceptance and commitment therapy de Steven C. Hayes, em Inglês.
  • Terapia de aceitação e compromisso: o precesso e a prática da mudança consciente, de Steven C. Hayes, Kirk Strosahl e Kelly G. Wilson.
  • Liberte-se: evitando as armadilhas da procura da felicidade de Russ Harris.
  • Tratando con... terapia de aceptación y compromiso: Habilidades terapéuticas centrales para la aplicación eficaz de Francisco Montesinos Marín, em Espanhol.
  • ACTuar según los valores: Manual Básico de Intervenciones basadas en la Terapia de Aceptación y Compromiso de Juan Aníbal González-Rivera, em Espanhol.

Este artigo é meramente informativo, em Psicologia-Online não temos a capacidade de fazer um diagnóstico ou indicar um tratamento. Recomendamos que você consulte um psicólogo para que ele te aconselhe sobre o seu caso em particular.

Se pretende ler mais artigos parecidos a Terapia de aceitação e compromisso: técnicas e exercícios, recomendamos que entre na nossa categoria de Psicologia clínica.

Bibliografia
  • K. G, Wilson. & M. C., Luciano (2002): Terapia de Aceptación y Compromiso. Un tratamiento conductual orientado a los valores. Madrid: Pirámide.
  • M. C., Luciano & M. S, Valdivia. (2006). La terapia de aceptación y compromiso (ACT). Fundamentos, características y evidencia. Papeles del psicólogo, 27(2), 79-91.

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